11 de janeiro de 2015

9 de janeiro de 2015

Conto de Natal: -u-cão de fogo (Altino Serrano, Cidade da Praia)



Jacinto era uma criança feliz de sete anos, que vivia em Chã das Caldeiras, na Ilha do Fogo, em Cabo verde. Nasceu a 25 de dezembro, dia em que celebrava o Natal e o aniversário. A sua terra era um paraíso de frutas e alegria: em casa, entre pais e irmãos, na escola, com os companheiros e no campo, com os animais e, especialmente, Bobi, o cão do qual nunca se separava.

Mas houve um ano em que não teve festa de Natal nem de aniversário. É que o vulcão da sua ilha zangou-se, começou a descer o monte, ameaçando a felicidade de Jacinto. Em poucos dias, tudo engoliu o vulcão: a casa, a igreja, a escola, os campos… Chã das Caldeiras, arrasada, desapareceu engolida pelo fogo e levada para o ventre da Terra como Jonas para o da baleia!

A maior dor de Jacinto foi não ter salvado Bobi, o cão, trancado no quarto, pela lava que entrou casa adentro!

Os pais ficaram sem nada. A família foi deslocada para outra parte da ilha. Mas nada aí encontrava do seu paraíso perdido… Ao fim de uns meses, como outros foguenses ao longo da história, a família partia para os Estados Unidos, a “terra prometida” de muitos cabo-verdianos. E, numa manhã, raiada de luz, desembarcam em Ellis Island, em Nova Iorque, recebidos pela estátua da liberdade.

São levados para as margens do lago Erie, onde Jacinto, no início, parecia imaginar a sua ilha, feliz, e reencontrar o monte do vulcão, a água do mar, a verdura do campo, os animais… Apenas Bobi lhe não saia da cabeça e nada lho fazia esquecer.

Jacinto cresceu, estudou e especializou-se em geologia: queria conhecer o interior da Terra, seus segredos e mistérios…

Era agora um homem maduro e, aos sábados, de verão e de inverno, o seu passatempo era pescar no grande lago e ver o seu filho, Roby, brincar na relva e andar de bicicleta… Aí tinha a impressão de estar na sua ilha. Por vezes, vinham-lhe à mente ecos da verdade cabo-verdiana, ouvida sempre, “não há partida sem regresso…”.

Nessa altura, houve um inverno com tanta neve e frio que não puderam dar o passeio durante três sábados. Foi na véspera de Natal que voltaram ao lago. Havia blocos de gelo por toda a parte. Roby passou a tarde a brincar com eles. Mas gostou especialmente de um, muito transparente, que parecia uma casa e, no meio, era muito vermelho. Parecia que tinha fogo. Pegou nele enquanto o pai pescava e, sem que ele visse, zás… meteu-o no saco térmico do pescado.

De regresso a casa, foi a ceia de Natal com a família alargada, os tios, os primos, que cheaeram de outras regiões… Roby e os primos ouviram histórias de Cabo Verde, da Ilha do Fogo, da vinda dos mais velhos, depois do vulcão do grande Novembro. Cansados, já tarde, todos foram deitar-se.

Era a hora de Jacinto ir pôr as prendas na árvore de Natal, no salão. Ao entrar, dá de caras com um vermelhão num ramo. Uma prenda, que já lá estava… Era um cão de fogo que, em suave melodia da sua infância, lhe canta e conta:

– Atravessei o ventre da Terra, dentro da tua casa, o fogo, a água e o gelo do lago, onde Roby me tomou. E sem ele ver, plantei-me aqui: sou um presente do mistério da vida, da terra e da poesia… para ti!

Sem palavras, Jacinto limpa duas lágrimas furtivas, que não contém.

Altino Serrano

Cidade da Praia, Cabo Verde

Recebido por email pelo autor. Altino Serrano é pseudónimo.
 

Madjangula Ya Lembe Le'Djimpsha (Engº Pimentel dos Santos, 1974)

 
 
Fonte: Arquivo Pessoal
 

Maputo: Bairro da Malhangalene

 
 
Fonte: Arquivo Pessoal

15 de dezembro de 2014

Moçambique: Campeonato Provincial do Maputo de Futebol de Cinco (1976)


O choque cultural do "retorno": A vida em Moçambique e a vida em Portugal



O choque cultural do "retorno": A vida em Moçambique e a vida em Portugal, uma narrativa na 1ª pessoa (Sérgio Guimarães)
Introdução
Este trabalho centra-se na história verídica do seu autor, narrada na primeira pessoa, e onde se irão encontrar alguns relatos que encontram equivalência em algumas das situações expressas no texto que à frente transcrevo, e que é nota introdutória do livro de Rita Garcia. A narrativa vai incidir sobre a cultura e modos de vida em Lourenço Marques (Moçambique) nos anos pré 25 de Abril de 1974, e posteriormente vai situar-se numa pequena vila do norte de Portugal, de nome Caldas de Vizela, local de onde era oriundo o pai do autor e onde residia grande parte da família deste, sendo também o local para onde o autor foi residir após a saída de Lourenço Marques. A principal intenção deste trabalho é dar a conhecer a cultura da classe média residente em Lourenço Marques nos inícios da década de 70 e que na sua quase totalidade era constituída por pessoas de raça branca, dando algumas notas sobre a construção nacional da identidade neste país. Tenho também como segunda intenção e ambição de desmistificar um pouco o conceito que existe na sociedade portuguesa, e que considero pouco correcto, de que os “retornados” eram “colonialistas exploradores dos povos africanos”, correndo o risco de estar errado, considero ser um conceito formado pela construção duma entidade social nacional pós 25 de Abril em que havia a necessidade extrema de condenar tudo o que estava relacionado com o antigo regime, sendo os “retornados” catalogados como colaboradores desse mesmo regime. Não tenho qualquer intenção de transmitir aqui um discurso ou mensagem politica ou partidária, apenas pretendo transmitir um pouco da cultura onde nasci e dar a conhecer uma realidade que foi de alguma maneira desconhecida pela maioria dos portugueses residentes em Portugal.
Após o 25 de Abril de 1974, a maioria dos Portugueses residentes nas ex-colónias, consideradas até à data como províncias de Portugal, foram forçados a abandonar os territórios onde viviam e tiveram que ir viver para outros países, sendo que a maioria veio para Portugal, alguns como retornados e outros como o autor, os que haviam nascido nas ex-colónias, vieram conhecer pela primeira vez a “Metrópole”, como era apelidada. A título de introdução ao trabalho, transcrevo a nota introdutória do livro de Rita Garcia “Os que vieram de Africa”, onde é referenciado o drama pelo qual passaram muitos dos residentes nas ex-colónias que vieram viver para Portugal.

Ricardo Araújo Pereira escreve ao primeiro-ministro

Caro Sr. primeiro-ministro,
O conjunto de medidas que me enviou para apreciação parece-me extraordinário. Confiscar as pensões dos idosos é muito inteligente. Em 2015, ano das próximas eleições legislativas, muitos velhotes já não estarão cá para votar. Tem-se observado que uma coisa que os idosos fazem muito é falecer. É uma espécie de passatempo, competindo em popularidade com o dominó. E, se lhes cortarmos na pensão, essa tendência agrava-se bastante. Ora, gente defunta não penaliza o governo nas urnas. Essa tem sido uma vantagem da democracia bastante descurada por vários governos, mas não pelo seu. Por outro lado, mesmo que cheguem vivos às eleições, há uma probabilidade forte de os velhotes não se lembrarem de quem lhes cortou o dinheiro da reforma.
O grande problema das sociedades modernas são os velhos. Trabalham pouco e gastam demais. Entregam-se a um consumismo desenfreado, sobretudo no que toca a drogas. São compradas na farmácia, mas não deixam de ser drogas. A culpa é da medicina, que lhes prolonga a vida muito para além da data da reforma. Chegam a passar dois e três anos repimpados a desfrutar das suas pensões. A esperança de vida destrói a nossa esperança numa boa vida, uma vez que o dinheiro gasto em pensões poderia estar a se aplicado onde realmente interessa, como os swaps, as PPP e o BPN.
Se me permite, gostaria de acrescentar algumas ideias para ajudar a minimizar o efeito negativo dos velhos na sociedade portuguesa:
1. Aumento da idade da reforma para os 85 anos. Os contestatários do costume dirão que se trata de uma barbaridade, e que acrescentar 20 anos à idade da reforma é muito. Perguntem aos próprios velhos. Estão sempre a queixar-se de que a vida passa a correr e que vinte anos não são nada. É verdade: 20 anos não são nada. Respeitemos a opinião dos idosos, pois é neles que está a sabedoria.
2. Exportação de velhos. O velho português é típico e pitoresco. Bem promovido, pode ter grande aceitação lá fora, quer para fazer pequenos trabalhos, quer apenas para enfeitar um alpendre, ou um jardim.
3. Convencer a artista Joana Vasconcelos a assinar 2.500 velhos e pô-los em exposição no MoMA, em Nova Iorque.
Creio que são propostas valiosas para o melhoramento da sociedade portuguesa, mantendo o espírito humanista que tem norteado as suas políticas.

Cordialmente,
Nicolau Maquiavel

O presépio


24 de outubro de 2014

Um penico cheio!...


5 de outubro de 2014

José Forjaz: “A nossa sociedade não tem consciência ambiental”


José Forjaz é céptico em relação à consciência ambientalista dos moçambicanos. Para si, na prática, ela não existe. Também reprova a ideia prevalecente – até no seio das (nossas) administrações políticas – segundo a qual a modernidade de uma cidade tem a ver com a edificação de prédios muito altos. O reputado arquitecto tem ideias claras sobre uma urbe moderna: “É aquela em que se garante a manutenção da dignidade humana”. Entre um misto de atropelos ambientais, que nesta urbe se cometem, em relação aos espaços verdes, Forjaz lamenta o que chama “especulação do solo urbano cujo objectivo primário, único e último é render muito dinheiro em pouco tempo”. A par disso – e os efeitos do chamado aquecimento global já se manifestam – esta personalidade moçambicana vê a criação contínua e desenfreada de uma dívida onerosa para as gerações futuras. Com a intenção de explorar os seus conhecimentos sobre os tópicos aqui arrolados, há dias, visitámos-lhe na sua casa, onde mais ouvimos do que falámos. Em resultado disso, mas sobretudo da grande relevância do escutado, foi-nos difícil recortar a conversa. Portanto, estimado leitor, apresentámos-lhe o texto na íntegra, na esperança de que – amante do saber que é – o absorverá por completo. Boa leitura…
 
@Verdade: Tendo em conta a situação das praia da Costa do Sol e da Katembe, em Maputo, pode-se falar de algum crime ambiental?
 
José Forjaz: O crime ambiental é um conceito lato e, portanto, difícil de definir. É evidente que há uma sucessão de infracções ambientais praticadas, que continuam a ocorrer na cidade, muitas vezes, até, contra planos aprovados pelo Governo. Por exemplo, já nos anos 1960, quando aquela região pertencia à Administração de Marracuene, permitiu-se a destruição do mangal com a construção do bairro do Triunfo. Na altura, a Administração de Lourenço Marques tinha-se recusado a autorizar a realização de construções nesse espaço. Entretanto, por desvios administrativos, as pessoas foram edificar o Triunfo no terreno que pertencia às autoridades de Marracuene.
 
Este foi o primeiro erro, porque se violou o princípio da proteção das terras baixas e dos mangais. Tratou-se de uma falha que se foi agravando de tal maneira que se gerou uma posição tacitamente aceite por todas as pessoas, e sobretudo pelas autoridades responsáveis, como natural. O Plano de Estrutura do Maputo definiu algumas restrições em relação à exploração desse território, mas, da forma como o caso está a ser tratado, compreende-se que está a ser autorizada a destruição progressiva e intensiva do mangal.
 
Portanto, este é um dos vários crimes ambientais que se podem apontar. Muitas vezes, estes crimes não são praticados por instintos criminosos, mas por causa de uma ignorância básica em relação às condições do equilíbrio ecológico de uma região e de uma cidade. É evidente que uma cidade que tivesse uma população mais esclarecida (e para isso era necessário que todo o povo moçambicano tivesse outro nível cultural que ainda não atingimos) haveria uma reacção popular mais forte. E, talvez, poder-se-ia lutar contra este tipo de desvios urbanísticos que se estão a praticar.
 
Em relação a outros crimes ambientais, é difícil ser-se objectivo. De todos os modos, algumas indicações podem ser dadas. Eu preferia até não ir muito por essa direcção, a fim de olhar para situações muito simples como, por exemplo, a destruição progressiva das zonas verdes de Maputo que continua a acontecer de várias maneiras. Podemos começar por aquele jardim na Avenida 24 de Julho que está a ser diminuído com a implantação de um edifício. Está-se, na verdade, a retirar mais uma área verde, indispensável, à urbe. Vemos várias intenções na destruição do Parque dos Continuadores com a autorização da construção de mais um edifício em que irá funcionar uma instituição bancária.
 
Enfim, tudo isto ocorre devido à ignorância das nossas autoridades administrativas e políticas que julgam que todos estes pequenos favores que fazem aos seus correligionários políticos não têm impactos ambientais. A verdade é que têm impactos ambientais muito graves. As gerações futuras vão pagar um preço muito alto pelo que está a acontecer na actualidade. Há outros crimes, talvez não de natureza ambiental, mas que prefiguram a dimensão mais dura na medida em que afectam a vida humana, a componente importante do ambiente, em estado permanente de abandono, sempre justificado mas nunca justificável.
 
Refiro-me à urgência de um tratamento sério das necessidades da população marginal em relação ao centro do Maputo. É um crime ambiental – quanto a mim, grave – porque as pessoas continuam sem infra-estruturas, apesar de se tentar começar tarde e a más horas, a desenvolver algumas acções de reabilitação e reordenamento dos bairros espontâneos ou informais. O facto é que não se está a fazer praticamente nada. A cidade continua a crescer impossivelmente sem condições aceitáveis de transporte e as que estão a ser imaginadas são megalómanas e, provavelmente, impossíveis de se manter dado os preços que se vão praticar.
 
Outro crime ambiental de que, infelizmente, não se fala bastante – cuja prevenção é determinante para a saúde das populações – é o que está a acontecer às águas da baía: o progressivo inquinamento, pelo não tratamento dos esgotos e a não restrição à má qualidade dos afluentes industriais descarregados na baía, cria uma situação sanitariamente perigosa, sobretudo, quando as praias são muito usadas, como acontece no Verão. A inquinação gera um perigo iminente e profundo para centenas de milhares de pessoas.
 
Não se está a falar disso, não se previnem os banhistas, pese embora, já nos anos antes da proclamação da independência nacional, metade da frente marítima de Maputo fosse proibida aos utentes, porque se sabia do agravamento do inquinamento que – neste momento, em meu entender – abrange toda a praia da Costa do Sol. Nenhum programa de prevenção, para as populações, está a ser desenvolvido pelas nossas autoridades sanitárias. Trata-se de um problema que tem a ver com os altos níveis de ignorância por parte das nossas autoridades administrativas. Não quero acreditar que estão a agir de má-fé. Existe uma impotência política para prevenir as pessoas. Em resultado disso, há escolhas erradas sobre aquilo que é prioritário fazer na cidade.
 
@Verdade: Há um conceito, até das nossas autoridades administrativas, segundo o qual os grandes edifícios que se erguem em Maputo revelam a tendência de modernização da cidade. Até que ponto essa modernização é, ambientalmente, sustentável?
 
José Forjaz: Essa ideia de que ser moderno é ter edifícios altos é primária e falsa. As cidades mais modernas do mundo continuam com edifícios, em geral, com menos de quatro andares. Na verdade, o que está a acontecer não é nenhuma modernização urbana. É uma especulação desenfreada do solo urbano, para benefício de entidades privadas e administrativas, cujo objectivo primário, único e último, é render muito dinheiro em pouco tempo. Pretende-se fazer o menos possível para ganhar o mais possível em pouco tempo. Isso só pode ser controlado se houver autoridades competentes e actuantes nesse sentido.
 
Para mim, a modernização urbana seria a possibilidade de se dar mais esgotos, passeios bem tratados, energia eléctrica às pessoas, incluindo todas as condições infra-estruturais suficientes para se manter a dignidade humana. A modernidade seria não permitir, por exemplo, que edifícios com 14, 18 ou 20 andares não tenham elevadores a funcionar. Enquanto a lei preconiza que qualquer edifício de mais de três andares deve ter um elevador a funcionar, a maioria dos elevadores dos edifícios altos da cidade está num estado de manutenção lamentável e perigoso.
 
Se a situação não estiver de acordo com a lei, deve haver uma intervenção por parte das autoridades. O problema é que os próprios ministérios funcionam em edifícios com 14 a 20 andares, há mais de 20 anos sem elevadores e ninguém fiscaliza isso. A situação é preocupante e revela o nosso atraso em relação à modernidade. De qualquer modo, tudo é uma questão de opção. Ou se opta por uma liberalização completa e uma protecção absoluta ao especulador, ou se opta por uma progressiva moralização da actividade de exploração fundiária da cidade e, por fim, deve optar-se também por menos banquetes e mais limpezas dos esgotos e das sarjetas da urbe.
 
É entre estas as possibilidades que se deve escolher o que fazer em Maputo. De facto, eu já ouvi as autoridades administrativas a afirmarem que uma cidade moderna é a que tem prédios altos. Há pouco tempo fizemos o projecto de um edifício importante na cidade e as autoridades administrativas ficaram tristes com o facto de esse prédio ter menos de 20 andares, contrariamente ao que esperavam. Confunde-se a modernização urbana com a existência de prédios muito altos. É uma estupidez profunda pensar-se que uma cidade moderna é a que tem edifícios enormes.
 
Infelizmente, a maioria dos nossos citadinos pensa que são válidos e louváveis os exemplos de supostas cidades modernas tão insustentáveis como Dubai. Se forem estes os exemplos que temos como válidos, então, estamos mal, porque Dubai é uma selvageria absoluta. E embora, agora esteja coberta com as balelas da existência de edifícios ecologicamente sustentáveis – outra aldrabice patente – aquela urbe é contra a modernidade. Como é que um deserto, que é um espaço naturalmente condicionado e artificialmente habitado pode ser ecologicamente sustentável? Penso que 99,9 porcento dos nossos concidadãos não têm a noção clara do que é um território ecologicamente sustentável. Neste número incluo as autoridades administrativas, em geral.
 
@Verdade: Até que ponto Maputo está em condições de receber novos edifícios, tendo em conta que alguns são erguidos em locais onde outros foram removidos?
 
José Forjaz: Isso não tem uma resposta absoluta e completa, porque há edifícios que atingiram a sua idade de vetustez e têm de ser demolidos. Há outros que poderiam ser construídos dentro da escala anterior. O que acontece é que o prédio que está ultrapassado na sua idade não é rentável para ninguém. Por isso, a sua substituição é natural – acontece em qualquer lugar. Infelizmente, no mundo, por razões de vária ordem – sociológica, económica e técnica – os edifícios, actualmente, duram pouco. A vida útil de um edifício estima-se entre 30 e 50 anos.
 
Ou seja, há prédios que nem duram a vida de uma pessoa, contrariamente ao que acontecia antigamente em que os edifícios eram feitos de pedra e de tijolo, o que lhes conferia uma grande longevidade. Por exemplo, na Europa, em África e na Ásia há edifícios com entre 300 e dois mil anos que cumprem, perfeitamente, o propósito da sua criação. O Panteão, em Roma, foi construído no ano 100 da nossa era e ainda existe. É uma igreja que funciona impecavelmente. O betão que se fabrica actualmente, contrariamente ao que as pessoas pensam, é um material que dura muito menos tempo do que a pedra e o tijolo. Portanto, os edifícios têm que ser repostos. Nos sítios já demarcados para o efeito, não vejo nenhum problema em que se construam prédios. Pelo contrário, quanto mais denso ficar o centro da urbe melhor.
 
O importante é resolvermos os problemas que se levantam com a densificação. Os edifícios mais antigos podem e, em muitos casos, devem ser substituídos. O problema é como esse processo é feito. Mas também o que está a acontecer é que nós estamos a permitir que se construam prédios substanciais em termos de quantidade de pessoas que se vão alojar neles e não estamos a desenvolver as infra-estruturas para acompanhar essa transformação. Esse é um problema que vai rebentar daqui a pouco tempo, quando repararmos que já não temos água, esgotos, e muito menos energia eléctrica.
 
@Verdade: Quais é que são os prováveis impactos dessa situação?
 
José Forjaz: As coisas vão funcionar cada vez pior do que estão. Como acontece em Luanda, cada edifício precisará de ter uma central eléctrica própria; teremos de ir buscar água com carros de tanques para alimentá-los; os esgotos passarão a funcionar numa pequena rede que, em resultado disso, deverá ser ampliada; e, portanto, há coisas que vão ter que se paralisar, sem pensar nas complicações de saúde mental das pessoas. A ansiedade será grande.
 
@Verdade: A baía de Maputo, sobretudo a avenida Marginal, tornou-se um ponto que atrai o surgimento de novas infra-estruturas como, por exemplo, os supermercados. O problema é que esta urbanização implicou a consequente remoção de espécies vegetais muitas das quais não estão a ser repostas ou que não sobreviveriam em geografias diferentes daquela. Quer comentar?
 
José Forjaz: Referiu-se a uma coisa que, antes de ser criminosa, é ridícula. Como é que se permite construir um supermercado na frente marítima? Há alguma coisa que melhora o funcionamento de um estabelecimento comercial por estar localizado numa frente marítima? Que valor se acrescenta à cidade a vender-se farinha em frente ao mar? Há uma estupidez maior do que colocar um centro comercial na frente marítima? As coisas começam por aí. Vivemos uma situação tão permissiva em que facilmente se permite um crime desta natureza, de tal sorte que as pessoas pensam que está tudo bem.
 
Sobre a questão da retirada das espécies já nos referimos quando falámos do mangal que é insubstituível, porque as condições da sua existência implicam a entrada e a saída das águas do mar. As espécies vegetais que podem ser repostas nas zonas do mar são um problema menor, mas seria muito melhor se fossem nativas. De qualquer modo, tudo isso é difícil discutir em poucas palavras porque são conceitos que além de científicos são estéticos e de outra ordem. Repare que a maior parte das nossas espécies de fruta é importada de outros ecossistemas: a papaia, a manga e o caju, por exemplo, não são espécies nativas de Moçambique.
 
Portanto, põe-se em discussão se realmente essa pureza de que não se pode trazer nada para cá, porque, se se procedesse assim, não teríamos, por exemplo, o milho, o arroz e uma série de produtos indispensáveis à nossa dieta. Eu não estou a defender que se tragam espécies de outros países para plantar na nossa frente marítima. O que estou a dizer é que é preciso ter cuidado com certas visões limitativas em relação a este fenómeno.
 
@Verdade: Há um fenómeno interessante concernente a esta relação homem-terra-mar em que, vezes sem conta, avaliando o movimento das águas, ficamos com a impressão de que o mar se aproximou mais da terra, e, em sentido contrário, percebe-se que a terra, através das construções edificadas na costa é que se aproximou do mar. O que é que está a acontecer ao certo aqui?
 
José Forjaz: Não posso dar uma resposta simples e directa a esta pergunta, por várias razões. Primeiro, porque não sou um especialista da dinâmica marinha. Segundo, porque os casos são diferentes uns dos outros. O que está a acontecer na baía de Maputo, como no lado da Katembe, é resultado de fenómenos de dinâmica marinha que ainda não são perfeitamente conhecidos. Não se tem a noção exacta do que está a acontecer.
 
São fenómenos imprevisíveis, mesmo para os mais altos níveis de conhecimento científico, porque são globais. Não são inerentes exclusivamente à costa moçambicana. Há muitos locais no mundo onde a praia está a ser ‘comida’ e outros onde ela está a ser aumentada. Quando pequeno, eu gostava de ir tomar banho na praia da Figueira da Foz, em Portugal, que era uma prainha de 50 metros. Agora possui 500. Mas há outra praia, no sul de Lisboa, que está a desaparecer. Portanto, estamos diante de fenómenos muito complexos que não podem ser atribuídos a uma má gestão urbana das zonas ribeirinhas.
 
Entretanto, vezes há em que intervenções humanas agravam a situação, enquanto outras melhoram-na durante algum tempo, porque contra o mar não há forças humanas possíveis de salvaguardar um status quo permanente. No meio de tudo isto, há um problema pontual para o qual nós temos de criar defesas psicológicas: O facto de a nossa população estar a ser recentemente urbanizada tem a ver com o desconhecimento de como se vive na cidade. A sua geração começa a saber, mas a minha e a dos seus avós é uma geração que, de uma forma geral, vivia nas zonas rurais, onde mantinha correcta e naturalmente um equilíbrio com o meio ambiente.
 
Na aldeia não há lixo, primeiro, porque as pessoas não produzem tanto e sabem ver-se livre dele. Ainda hoje, qualquer aldeia rural moçambicana é um modelo de organização. Mas quando as pessoas vêm para a cidade – e deixa de haver o controlo social em relação à coesão e a integração das forças locais – sempre se incumbe a responsabilidade ao outro e à administração. Por exemplo, nos estádios onde estiveram a ver o seu país a jogar, os espectadores japoneses que foram ao Brasil, no âmbito da Copa do Mundo de 2014, antes de saírem tinham um saquinho, com a bandeira do Japão, onde meteram todo o lixo que produziram.
 
Os alemães fizeram o mesmo. Em resultado disso, o local onde estavam sentados, quando saíram, estava impecável. Em contra-senso, os brasileiros, porque tinham perdido, foram partir a cidade. Aqui há um aspecto fundamental que tem a ver com a cultura urbana e humana que os brasileiros ainda não atingiram. Nós os moçambicanos também ainda não a atingimos, porque se formos à praia deitamos garrafas em qualquer lugar, como tem estado a acontecer, e no dia seguinte a praia é impraticável.
 
Ora, você acha que alguém dos 100 porcento de pessoas que vão à praia se preocupa em fazer alguma limpeza? Há uma questão de cultura urbana que ainda não foi atingida. Ela vai ser alcançada, devagarinho, mas nós temos de ser claros acerca disso. Não devemos esconder e, em jeito de paternalismo, dizer que somos pobres. Aos japoneses ninguém ofereceu os sacos de lixo. Portanto, é uma questão de atitude. Eu vejo, na cidade, quando estou a conduzir, pessoas a deitar latas de cerveja pelas janelas do carro, sem qualquer espécie de pensamento de que esse comportamento, além de ilegal, é contra a saúde pública.
 
@Verdade: Não estaremos diante de um caso que precisa de uma espécie de educação cívica mais actuante?
 
José Forjaz: A educação começa em casa e na escola. O problema é que quando é o professor quem faz isto, como muitas vezes acontece, o aluno não aprende. A outra dificuldade tem a ver com o facto de se não explicar, às pessoas, as razões de se ter de mudar de atitude. Não é simplesmente pela necessidade de se ter um espaço mais limpinho. É que ficar limpo corresponde aos mais altos níveis de saúde e reduz os investimentos públicos nesse aspecto.
 
@Verdade: O que se pode fazer?
 
José Forjaz: Pode-se educar as pessoas. Agora, não se educa muito pois aquilo que se transmite às gerações é quanto mais rico se for e mais de pressa, mais valor se tem ou mais respeitada é a pessoa. E, realmente, a única coisa que temos estado a transmitir, com uma insistência perigosa, é: ‘enriquece, meu filho’. E é claro que o choque surge porque, no lugar de enriquecer, a maioria das pessoas está a empobrecer cada vez mais.
 
Escrito por Inocêncio Albino
 
Fonte: @verdade, 18 de Setembro de 2014

Divagando um pouco


Nasci e vivi a minha infância no Centro de Moçambique, assim como todos os meus irmãos e outros familiares, a família mudou-se para a Beira e depois para Lourenço Marques.

Os meus três irmãos mais velhos, andaram ambos na Guerra Colonial em Moçambique, em zonas 100% operacionais como Tete, Niassa e Cabo Delgado, uns a seguir aos outros, sem intervalos.

Os mancebos residentes em Moçambique e que eram recrutados, assentavam praça no Quartel de Boane onde ficavam 3 meses na recruta. Boane fica situada a 50 quilómetros a Sul da capital de Lourenço Marques, hoje Maputo.

Ao fim de três meses de recruta, eram então enviados para os vários Quartéis espalhados pelo Território, para tirarem a especialização de combate e defesa com os "instrutores" e só depois é que estavam atos para irem para a guerra, tanto poderiam ficar a combater em Moçambique, como irem para Angola, Guiné ou Timor, onde ficavam mais de três anos a defender o território e o povo português (de várias raças e crenças) até cumprirem o serviço militar obrigatório.

Em seguida passavam à disponibilidade e ainda ficavam na "reserva até aos 35 anos de idade", se houvesse falta de homens, seriam novamente convocados para servirem a “Pátria”.

Depois da Independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975, Vila Pery como se sabe passou a chamar-se Chimoio, onde há uma "fronteira oficial" com o Zimbabwe (antiga Rodésia do Sul, ex-colónia britânica), de passagem e de entrada de pessoas, bens e mercadorias.

Os militares enviados para Vila Pery (onde ficava o Quartel de Artilharia), especializavam-se em radiotelegrafistas, condutores de panhards, apontadores-atiradores, etc. (salvo erro e omissão).

O Quartel de Artilharia no Chimoio, ainda existe dentro das condições possíveis, mas já não é o Quartel que era há quarenta anos.

Chimoio está muito diferente devido à debandada geral do povo português a seguir ao 25 de Abril e depois também devido à guerra civil que alastrou no país durante 16 anos, ficando anos a fio sem vivalma e à mercê da invasão dos estrangeiros, dos seus vizinhos, que nela se foram instalando porque não havia qualquer controlo.

Depois disso nada foi feito ou reconstruído, há esgotos a céu aberto, ruas ou caminhos de terra batida, e está transformada em mercados informais de rua, este cenário existe em todo o país.

Na cidade da Beira a situação é igual, o mercado informal instalou-se por todo o lado, a degradação do património do tempo colonial (igrejas, escolas, liceus, edifícios, vivendas, chalés) é impressionante, é um horror de contemplar, mas os nomes das artérias (toponímia) tirando meia dúzia que foram alteradas, mantém-se como no passado.

A Infantaria, a Cavalaria, a Marinha e a Força Aérea, para além dos quartéis gerais funcionarem em Lourenço Marques, depois de tantos anos que se passaram não me recordo onde ficavam estrategicamente instalados por todo o território de Moçambique.

Depois de ter começado a Guerra Colonial (talvez em meados dos anos sessenta), foi construído no Dondo, uma vila que fica no interior a 12 quilómetros de distância da cidade da Beira, um Quartel com dois Aeródromos para ensino, aprendizagem e treino de paraquedismo militar.

A seguir ao 25 de Abril, o Dondo foi bombardeado, o quartel, as pistas, as fábricas, as indústrias e as próprias habitações dos civis foi tudo destruído, a população que sobreviveu teve que fugir para a cidade da Beira.

A Independência de Moçambique, como é do conhecimento de todos, foi entregue à Frelimo (numa salva de prata), sem consulta prévia popular, sem estabelecer um prazo para o fazer, até para haver um consenso político e popular.

Em 1976 como a Renamo não concordou, começou uma guerra civil entre estes dois partidos (Frelimo e Renamo), e andaram dezasseis anos a guerrear-se por questões políticas, matando o seu próprio povo, destruindo todo o seu próprio país, chacinando milhares de gerações.

Por causa da guerra civil entre a Frelimo e a Renamo o Parque Nacional da Gorongosa atualmente está uma penúria, devido à debandada geral do povo que vivia no Centro de Moçambique, que foi obrigado a fugir aos milhares, procurando refúgio nas aldeias, vilas e nas cidades costeiras, para salvarem as suas vidas, para escaparem a tamanha matança.

E esse povo nunca mais regressou às suas origens, aos seus povoados, às suas aldeias ou vilas onde nasceu e onde viveram com todos os seus antepassados, porque esses povoados foram bombardeados durante 16 anos e deixaram de existir, desapareceram, já não existem, esfumaram-se do mapa.

Por causa desta guerra quase todos os animais selvagens foram mortos e muitos deles foram totalmente extintos.

As florestas e matas foram destruídas pelos incêndios, pelos bombardeamentos e devastadas à catanada.

Finalmente, em Outubro de 1992, foi assinado em Roma o "Acordo Geral de Paz" que pôs termo a esta matança.

Mas este Acordo de Paz nunca foi respeitado até aos dias de hoje.

Alguns anos depois, com a colaboração do Parque Nacional do Krugger da África do Sul, foram reintroduzidas no Parque Nacional da Gorongosa muitas espécies de animais selvagens (elefantes, hipopótamos, zebras, javalis, antílopes, búfalos, bois-cavalos, girafas, leões, impalas), procedendo-se também à sua reflorestação (vegetação, arbustos, acácias, árvores de frutas, e de madeiras exóticas).

O Parque Nacional da Gorongosa num esforço gigantesco parecia que ia renascer das suas próprias cinzas.

Uma tarefa inglória porque atualmente Moçambique é o palco mundial de extermínio da vida selvagem, das matas e das florestas.

O Parque Nacional da Gorongosa era naquele tempo o mais famoso e o mais povoado de toda a África tinha quatro reservas de caça, hoje, não tem nada a ver com o passado colonial português.

As independências vergonhosas das colónias portuguesas, dadas às pressas em 1975, pelos covardes e traidores, pelos vendilhões da Pátria, pela corja de bandidos e criminosos do 25 da abrilada de 1974, só deram mau resultado para todos.

Porque o povo português de todas as raças e crenças, foi abandonado à sua sorte, pelos traidores, pelos corruptos e pelos miseráveis de Lisboa, que tomaram de assalto “Portugal e o poder político” e nunca mais o largou até aos dias de hoje.

Moçambique já não é o mesmo território para quem lá nasceu ou viveu antes da vergonhosa independência.

Fonte: Arquivo Pessoal