25 de junho de 2014

O 25 de Abril de 1974 e as Independências Exemplares do Império Colonial Português



Quanto «às independências ditas exemplares pelos vendilhões da Pátria Portuguesa, pelos traidores e cobardes do 25 de Abril de 1974», o povo português que vivia na ex-colónia de Moçambique (de todas as raças e crenças), logo a seguir ao 25 de Abril, foi obrigado a entregar as armas que tinham em casa (os que as tinham), mediante a ameaça que JOAQUIM CHISSANO fez através da rádio, que se não as entregassem, imediatamente mandaria chacinar os portugueses pelos marginais.

Mesmo assim, depois de as armas serem entregues, os portugueses foram todos enganados e sem aviso prévio, sem nada o prever, ordenaram a sua perseguição, a sua crucificação, a sua chacina, a sua matança.

O povo português ficou desarmado, indefeso e à disposição das hordas de assassinos, de grupos de maltrapilhos e analfabetos que assolaram a capital, as vilas, as aldeias e as cidades dos arredores, aliás todo o território moçambicano foi invadido por estes criminosos, dizendo que estavam a cumprir ORDENS recebidas dos seus "SUPERIORES" (os de Moçambique e os de Lisboa).

Armados de catanas, metralhadoras, baionetas e outros materiais contundentes, perseguiram o povo nas casas, nos empregos, nas escolas, nos templos religiosos, nos hospitais, nas machambas, nas ruas, em todo o lado onde estivesse, para o chacinar.

Estupraram milhares de mulheres, crianças e idosas, perante a impotência dos homens da família, porque eram manietados, acorrentados, ameaçados com catanas e baionetas, eram obrigados a assistir a estas crueldades horrendas, para depois no fim serem todos chacinados e esquartejados, morrendo assim milhares num conflito hediondo de que o povo português foi a principal vítima.

Nos cemitérios vandalizaram jazigos, campas, caixões e os mortos foram profanados.

Os “superiores de Moçambique e os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria – os de Lisboa”, ordenaram estas chacinas, para que o povo ficasse aterrorizado e fugisse imediatamente de Moçambique, para lhes serem confiscados todos os seus bens - os portugueses ficaram sem nada, ficaram despojados de todos os seus haveres.

“Os superiores de Moçambique” não queriam que os portugueses ficassem em Moçambique depois da Independência (obtendo a nacionalidade moçambicana e continuando a viver a sua vida no Moçambique Independente), e também “os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria” – os de Lisboa, não queriam os portugueses, os retornados da África, em Portugal.

Não foi o cobarde, o traidor de Portugal, o vendilhão da Pátria – MÁRIO SOARES - que disse para atirarem os portugueses, os retornados de África, dos aviões ao mar para que fossem comidos pelos tubarões?!

Quando os SOLDADOS PORTUGUESES que ainda se encontravam em Lourenço Marques, a seguir ao 25 DE ABRIL, mesmo que presenciassem violações, roubos e mortes e os portugueses lhes implorava socorro, eles faziam chacota, palitavam os dentes, mascavam chicletes, fumavam e cuspiam para o chão, cruzavam e descruzavam os braços ou as pernas, viravam costas, ficavam indiferentes, em posição de descanso, quer vissem desmembrar crianças (como aconteceu na Ponte Pinto Teixeira), violar mulheres à frente de todos ou rebentar as portas das cantinas, das casas ou das flats para matar os donos e roubar-lhes tudo, diziam: “SÃO ORDENS DE LISBOA”.

E a procissão de veículos, carros, camiões e jeeps regados com gasolina a que deitavam fogo depois de trancar as portas com os seus ocupantes lá dentro, filas intermináveis de veículos a arder, tudo em labaredas gigantescas, fumos imensos negros e densos, cheirando a carne queimada por toda o lado, parecia que Lourenço Marques, as suas vilas, as aldeias e as cidades nos seus arredores, iam desaparecer do mapa, num inferno dantesco, um autêntico apocalipse.

As pessoas que eram apanhadas, enfiavam-lhes pneus dos carros pelas cabeças abaixo, que lhes mobilizava os braços, ficavam logo em asfixia, penduravam-nas nas árvores, regavam-nas com gasolina e deitavam-lhes fogo, uns autênticos archotes humanos.

Foi um espetáculo horroroso e diabólico que preencheu os 250 quilómetros que medeiam entre Lourenço Marques e a cidade de João Belo.

Em Lourenço Marques e nos seus bairros limítrofes (Mahotas, Infulene, Aeroporto, Malhangalene, Mafalala, Benfica, Xipamanine, etc.), muitas casas foram incendiadas com as pessoas lá dentro, outras conseguiram fugir e andaram refugiadas no centro da cidade, onde foram acolhidas em casa de familiares, em casa de pessoas conhecidas e outras foram acolhidas até por pessoas desconhecidas.

Porque estas hordas de assassinos, já estavam a fazer um cerco à cidade de Lourenço Marques para obrigar o povo, que estava cada vez mais encurralado, a fugir para a Baixa da cidade, em direção à sua Baía – não havia outra escapatória, morreriam chacinados, ou morreriam todos afogados - seria uma carnificina absoluta e inexorável.

Claro que perante estas chacinas levadas a cabo com uma selvajaria diabólica e não havendo sinais para que terminassem, deu-se a debandada geral dum povo que foi abandonado desde o início e de propósito pelos traidores e cobardes de Lisboa, crucificado, fragilizado, aterrorizado, horrorizado, traumatizado, que conseguiu sobreviver a tamanha matança, deixando para trás todos os seus bens imóveis, móveis, veículos e pertences pessoais - tudo o que ainda não tinha sido saqueado, tudo o que ainda não tinha sido pilhado - saindo às pressas de Moçambique com uma mão à frente e outra atrás, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

O dinheiro que muitos portugueses tinham guardado nos bancos, as economias que muitos andaram a poupar ao longo dos anos com muito trabalho e sacrifício, com a intenção de terem uma velhice digna já que não havia reformas, sem aviso prévio ficaram sem as suas economias, ficaram sem nada, ficaram sem um tostão, porque as contas bancárias pessoais e das Empresas foram todas congeladas após o 25 de Abril, a mando dos “superiores de Moçambique e dos traidores, dos cobardes de Abril, dos vendilhões da Pátria – os de Lisboa”.

Os portugueses só conseguiam sair de Moçambique no Aeroporto de Lourenço Marques ou nas Fronteiras saindo em direcção à África do Sul e outros países africanos, mediante a apresentação de um documento emitido pela Frelimo, onde era comprovado que tinham sido entregue as chaves das habitações alugadas ou próprias, caso contrário não podiam sair de lá.

Os massacres mais hediondos perpetrados contra o povo português (de todas as raças e de todas as crenças) e que estão na memória de quem “sobreviveu a eles” são o 7 de Setembro, o 21 de Outubro e o 17 de Dezembro de 1974.

Na altura destes massacres tinha surgido na cidade de Lourenço Marques “um grupo refratário, insignificante e asqueroso de portugueses de todas as raças e de todas as crenças”, que não aceitavam jamais que Moçambique fosse Independente, contribuindo eles também com este ignóbil, intolerável e inaceitável protesto, ao massacre dos seus compatriotas.

Passados que são 40 anos, “este grupo refratário”, cujos nomes constam de uma lista (eu sei o nome de algumas pessoas), que está na posse do Governo de Moçambique desde essa data - continuam a estar proibidos de pisar “Terra Moçambicana”.

Ainda estão vivos alguns dos RESPONSÁVEIS (moçambicanos e portugueses) pelos hediondos massacres perpetrados ao povo português, que lançaram milhares de corpos de portugueses nas águas da Baía, dos rios Limpopo, Incomáti, Umbeluzi, Matola, ou os transformaram em cinzas fumegantes na terra que se acreditava que pudesse ser de todos os que lá estavam e que queriam continuar a viver nela – portugueses de todas as raças e de todas as crenças.

Esta chacina foi compactuada com os de “Moçambique e com os traidores e os cobardes do 25 de Abril (os vendilhões da Pátria)” – que deram as independências às pressas.

Com exceção dos Deficientes das Forças Armadas, depois do 25 de Abril de 1974, todos os antigos combatentes da guerra colonial, foram "votados ao abandono” por Portugal, ao longo destes 40 anos de "democracia".

Durante a guerra colonial e também no pós-25 de Abril, alguns dos ex-combatentes perpetraram por conta própria "Crimes de Alta Traição à Pátria Portuguesa e ao seu Povo" e que estão “gravados” nas páginas negras da História de Moçambique e da História de Portugal.

Um dos meus irmãos que cumpriu o serviço militar em Tete, numa das muitas emboscadas de que foi alvo, a sua companhia sofreu uma emboscada terrível em 1970, onde camaradas seus perderam a vida, outros ficaram gravemente feridos, foram evacuados para o Hospital Militar em Lourenço Marques (muitos deles ficaram com braços e pernas amputados e muitos até sem os olhos) - ficaram inválidos, mutilados, cegos e com traumas de guerra para toda a vida.

Depois de ter recuperado e estar novamente apto, esteve três meses em serviço no Quartel Geral sito no Bairro do Alto Maé na cidade de Lourenço Marques.

A Baía de Lourenço Marques com uma largura de 36 quilómetros e 52 quilómetros de comprimento, forma o Estuário do Espírito Santo com 30 quilómetros quadrados.

Na Baía embocam, além de outros, os rios Maputo, Incomáti, Umbeluzi, Matola e Tembe.

A Xefina (constituída por 3 ilhas, Xefina Grande, Xefina Média e Xefina Pequena), fica dentro do Estuário do Espírito Santo, a uma distância de 5 quilómetros de Lourenço Marques, quase frente à Praia da Costa do Sol.

Na Xefina existia na altura um Forte e uma Prisão Militar.

O seu serviço durante estes três meses consistiu no seguinte:

Ia todos os dias com os seus camaradas à Xefina num barco da Marinha para levarem víveres, medicamentos, correspondência e outros, aos militares que ali se encontravam presos a cumprirem pena sentenciada pelo “Tribunal de Guerra” por terem cometido crimes contra o “Estado Português”.

Em seguida o meu irmão retornou a Tete para cumprir o tempo de serviço militar que ainda lhe faltava para passar à disponibilidade.

Falando em militares condenados pelo “Tribunal de Guerra” e presos na Xefina, quem não se lembra de nos meados dos anos sessenta, um militar ter morto a tiro, três camaradas seus dentro do Quartel Geral na cidade de Lourenço Marques?

Pois eu lembro-me, nunca o vou esquecer enquanto viver, porque um deles pertencia à nossa família e era filho único, sem irmãos, a casa onde morava ele e os seus pais ficava perto do Quartel onde foi morto, na Avenida 24 de Julho – Alto Maé.

Ficou sepultado no Jazigo de Família no Cemitério de S. José de Lhanguene.

Esta imensa vergonha que, com a Inquisição, constituem as mais negras páginas de uma História gloriosa – como foi a de Portugal – talvez para mostrar que mesmo um povo de heróis pode gerar traidores e fratricidas.

- Porque é que Portugal deu um prazo gigantesco, estranho e excessivo de 10 anos para entregar a cidade de Macau à China, e não fez o mesmo com as Províncias Ultramarinas, com todo o seu Império Colonial Português?!

Moçambique está de parabéns pelo dia de hoje.

Que o povo moçambicano tenha muita paz, seja muito feliz e viva com muita prosperidade.

Fonte: Arquivo Pessoal

30 de maio de 2014

Portugal 40 anos depois


Desde o famoso Golpe Militar de 25 de Abril de 1974, o poder político foi tomado de assalto pela machimba dos politiqueiros, pela corja de bandidos, pelos corruptos gananciosos, pelos mafiosos desonestos, pelos prepotentes e ditadores, pelos covardes e traidores, pelos vampiros e sanguessugas, pelos esclavagistas cruéis e desumanos.

Uma gentalha de oportunistas, de analfabetos sem escrúpulos, muitos deles detentores de “canudos falsos” e “outros são tão ocos que não têm nada lá dentro”, mas que não olha a meios para atingir os fins a que se propuseram os cobardolas de abril: enriquecer de geração em geração, saqueando o seu próprio país custe o que custar, deixando-o na bancarrota, pondo o seu próprio povo trabalhador no desemprego e os reformados e pensionistas na miséria, para o aterrorizar e para o poder subjugar.

O PSD - Que sabem eles o que que significa "Democracia"? - Nada.

O PS - Que sabem eles o que significa "Socialismo"? - Nada

O PCP - Que sabem eles o que significa "Comunismo"? - Nada

Dizem eles que antes havia em Portugal o "fascismo", nada mais estúpido, havia sim uma ditadura, como se percebe eles nem sabem distinguir o significado entre "fascismo e ditadura".

O que mudou afinal em Portugal com o Golpe Militar do 25 de Abril de 1974 perpetrado por traidores?

- Dizem eles que veio a Democracia. Mas que Democracia é que existe? - Nenhuma, nem nunca existiu! 

- Para o povo nada mudou, o povo pode ter vivido iludido ou ludibriado, mas na realidade nunca foi beneficiado em nada!

- Os funcionário públicos e os reformados que não roubaram nada a ninguém, é que foram infelizmente os escolhidos como bode expiatório, para pagarem uma crise financeira que não a fizeram, mas que tem sido feita há muitos anos pela corja dos políticos e dos banqueiros corruptos e ladrões que foram "ao pote" e continuam a ir e puseram Portugal na bancarrota.

- Os trabalhadores sempre foram explorados, sempre foram escravizados, sempre foram ferramenta de trabalho e sempre foram mão-de-obra barata.

A machimba continua a ser sempre a mesma, o que tem mudado são só os moscardos.

Esta escumalha instalou-se, alastrou-se, propagou-se e perpetuou-se.

Fonte: Arquivo Pessoal

25 de maio de 2014

Dia de África: Alguns dos acontecimentos mais importantes do continente


Dia 25 de Maio assinala-se o dia do continente africano. Considerado como o berço da humanidade, África é o começo da vida, o palco das histórias de conquistas e posteriormente de tomadas de consciência. O continente assemelha-se a um caldeirão de culturas em constante movimento e as riquezas naturais que apresenta até hoje não conseguem ser igualadas. Terra de ambiguidades, é sobretudo, o lar de um povo onde reina a esperança pela conquista de um futuro melhor.

Ao longo dos tempos, o continente africano sofreu vários flagelos, quer a nível político, económico e social que mudaram para sempre o rumo da sua história. Em jeito de celebração, a cronologia apresentada retrata os momentos mais marcantes do continente-berço.

3100 AC - Os Faraós unificam o Estado Egípcio. Durante o Antigo Império foram construídas obras de drenagem e irrigação, que permitiram a expansão da agricultura. São desse período ainda as grandes pirâmides dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, construídas nas proximidades de Mênfis, a capital do Egito na época.

1240 - Fundação do Reino do Congo. Na sua máxima dimensão, estendia-se desde o oceano Atlântico, a oeste, até ao rio Cuango, a leste, e do rio Oguwé, no actual Gabão, a norte, até ao rio Kwanza, a sul. O reino do Congo foi fundado por Ntinu Wene, no século XIII.

1575 - Portugueses chegam a Moçambique pela caravela de Vasco da Gama. Quando Vasco da Gama chegou pela primeira vez a Moçambique, em 1497, já existiam entrepostos comerciais árabes e uma grande parte da população tinha aderido ao Islão.

1884-1885 - Consolidação do Domínio Europeu em África - Na conferência de Berlim, na Alemanha, África é partilhada pelas potências europeias. Cabinda, em Angola, é colocada como protectorado português.

1896 - Etiópia sob o comando do Imperador Menelik II. A Etiópia consegue resistir à invasão Europeia, vencendo os italianos na batalha de Adwa. Em 1914, apenas a Etiópia e a Libéria mantêm-se independentes do controle colonial europeu.

1899 -1902 - Guerra Anglo-Boer na África do Sul - Enquanto que os britânicos vencem a guerra, necessitam na mesma de fazer concessões aos Boer e suas organizações políticas para o controlo interno da África do Sul, abrindo caminho para os sul-africanos libertarem-se eventualmente do domínio britânico e, de seguida, dominar a maioria negra em todo país.

1914-1918 - 1ª Guerra Mundial - África mantinha-se dividida pelos poderes coloniais europeus. A guerra mundial, contudo, diminui o mito da invencibilidade, superioridade e do intitulado direito europeu de comandar o mundo. Alemanha perde as suas colónias africanas para França e Grã-Bretanha, que tinham a missão de preparar o processo de desconolização, dada pela Liga das Nações.

1920 - Congresso Pan-Africano - Sedeado em Paris, o Congresso Pan-Africano é alimentado pela agitação anti-colonial e o nacionalismo africano de missionários negros e das elites do Ocidente. Essa agitação é expressa nos ataques de Serra Leoa e Nigéria.

1939-1945 - 2ª guerra mundial - Na maior parte das regiões africanas o ressentimento da presença colonial transforma-se em agitação política. No período após a Europa manter-se concentrada nos seus próprios problemas, como lidar com mais uma guerra, formavam-se políticos africanos que eventualmente iriam liderar os seus países até a independência.

1946 - Os poderes coloniais variam na sua vontade em diminuir o controlo. França demonstra a iniciativa oferecendo poderes reais a políticos africanos, mas sem aceitar mudanças na Tunísia, Marrocos e, acima de tudo, Argélia. Portugal, o pioneiro do colonialismo em áfrica, luta arduamente para manter-se no continente, mantendo brutas e dispendiosas guerras em várias frentes até 1975.

1950 - As graves consequências da descolonização no Quénia. Com uma enorme população branca, o Quénia é palco de uma longa campanha de terror e guerrilha contra os britânicos liderada por Jomo Kenyatta e seus rebeldes, denominados “Mau-Mau”.

1957 - Grã-Bretanha perde influência nas colónias. Segue um caminho mediano, apreciando as aspirações africanas mas instintivamente à procura de compromissos que o fariam preservar algum do seu status quo. Contudo, a pressão para mudanças nas colónias britânicas mais desenvolvidas prova-se irresistível. Ghana, torna-se nesse ano, na primeira colónia na África Sub-Sahariana a ganhar a independência.

1963 - Guerra Fria - Período conturbado para o continente. As nações africanas emergentes beneficiam e ao mesmo tempo são prejudicadas pela competição global entre os Estados Unidos e a antiga URSS. O “jogo de xadrez” entre as duas super-potências faz com que estas procurem clientes-estado. A vantagem seria o apoio financeiro em troca de uma simples ideologia: comunismo ou capitalismo. Contudo, vários ditadores africanos mantiveram-se no poder com este patrocínio.

1975 - Moçambique torna-se independente. Finalmente, a guerra terminou com os Acordos de Lusaka, assinados a 7 de Setembro de 1974 entre o governo português e a FRELIMO, na sequência da Revolução dos Cravos. Ao abrigo desse acordo, foi formado um Governo de Transição, chefiado por Joaquim Chissano, que incluía ministros nomeados pelo governo português e outros nomeados pela FRELIMO.

1989 - O fim da guerra fria. As lutas internas pelo poder aumentam de escala e os conflitos étnicos são uma constante na maioria dos países africanos, consequência também do final da Guerra Fria e O genocídio do Rwanda que mais tarde assola o país com a rivalidade étnica entre tutsis e hutus é um exemplo da ingenuidade do mundo em relação aos problemas africanos.

1994 - A "libertação" sul-africana. O poder político é finalmente concedido aos sul-africanos com as primeiras eleições presidenciais. Nelson Mandela, antigo preso político e herói nacional, vence as eleições com maioria absoluta.

2010 - Primeira Miss Universo Africana. Leila Lopes, fruto de África e de Angola é considerada a mulher mais bonita do mundo.

2011 - "Nasce" o Sudão do Sul. A 9 de Julho, o mundo "ganha" um novo país. O Sudão do Sul torna-se num Estado independente, após um referendo de autodeterminação e vários conflitos com o Sudão do Norte.

Estes são alguns dos acontecimentos mais marcantes do continente que simbolizam a capacidade de superação do povo africano. Sem caracter cronológico mas a merecer também algum destaque é a beleza natural e única, outrora escondida pelas mágoas do tempo e, actualmente, revelada com a vontade de quem acredita no começo de uma nova estória.


Fonte: Sapo MZ

Cartazes de Moçambique

 
 

Fonte: UA

Cartazes de Angola

 


Fonte: UA

Um Dia na Praia (Livraria Coop - Lourenço Marques)

O Lanche dos Coelhos (Livraria Coop - Lourenço Marques)

11 de maio de 2014

Moçambique: Ponto de táxi na cidade de Lichinga



Ir à poucura de táxi em Lichinga, Província do Niassa é quase que original. Esquece os veículos de quatro rodas pintados de verde e amarelo. Nesta cidade a moda é apanhar uma mota ou uma bicicleta e boa viagem.

Sapo MZ

Moçambique: Farol do Macúti na Cidade da Beira



Caracteriza-se por ser uma torre troncónica com 28 metros de altura, possuindo um farol de rotação com o alcance de 18 milhas. A sua construção foi efetuada pelo engenheiro Carlos Roma Machado de Faria e Maia, tendo sido inaugurado a 2 de Janeiro de 1904. Estava equipado com uma lâmpada de 50.000 velas, possuindo para-raios, mastro de sinais, sereia acústica e uma linha telegráfica que o ligava à Capitania dos Portos.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Estação Ferroviária na Cidade da Beira



Os autores desta obra foram os arquitetos João Afonso Garizo do Carmo, Francisco de Castro e Paulo de Melo Sampaio. A estação foi inaugurada em 1 de Outubro de 1966. O edifício foi decorado, interior e exteriormente, por um notável grupo de artistas que residiam em Moçambique.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Conselho Municipal na Cidade da Beira



Construído inicialmente para residência do Dr. Araújo de Lacerda, o benemérito da cidade. Em 1928 reverteu a favor da Comissão de Administração Urbana, tal como rezava o seu testamento. Inicialmente, era uma casa de madeira e zinco, tendo sido reconstruída em alvenaria. O aspeto atual é de 1943, quando se reconstruíram as fachadas, a partir de projeto do arquiteto José Luís Porto.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Clube Náutico na Cidade da Beira



Localiza-se no Bairro do Macúti. O projeto é do arquiteto Francisco de Castro, tendo sido construído em 1955, compreendendo um restaurante-bar, um parque infantil e uma piscina.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Cinema Nacional na Cidade da Beira



Localiza-se na Rua Costa Serrão. O seu ante-projeto foi apresentado publicamente em Maio de 1953, sendo da autoria do arquiteto Castro Freire. Foi inaugurado a 31 de Maio de 1956.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Cine-Teatro São Jorge na Cidade da Beira


Propriedade original dos irmãos Paraskeva (Nicolau, Cleo e João). Teve como arquiteto João Afonso Garizo do Carmo (1917-1974). Tem intervenções artísticas do escultor Arlindo Rocha e do ceramista Jorge Garizo do Carmo. Foi inaugurado a 17 de novembro de 1954. Erguido numa zona de expansão urbana da Beira, foi o primeiro grande teatro da cidade e uma das suas obras pioneiras de arquitetura moderna. Compõe-se de um volume trapezoidal em leque, correspondendo à sala de espetáculos, implantado obliquamente ao cunhal sul da antiga Praça Almirante Reis, precedido por dois corpos menores convexos, contendo os espaços de apoio, que se intersectam num jogo volumétrico organicamente expressionista. Edifício construído em betão e aço, na fachada principal destaca-se o vão horizontal de dupla altura, enquadrado por uma moldura saliente e protegido por um brise-soleil de lâminas verticais, publicitando no exterior o carácter excepcional da sua função pública.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Episódios da vida de Josina Machel - A Biografia



Uma mulher de luta

É à grande amizade entre a Dra. Josina de Lima Ribeiro – médica no então Hospital Miguel Bombarda, hoje Hospital Central de Maputo – e o seu pai, o enfermeiro Abiatar Muthemba, que Josina deve o seu nome. O pedido da médica foi atendido à segunda – primeiro nasceu Esperança – pelo enfermeiro.

Josina, apesar de ter nascido em Inhambane, iniciou os seus estudos em Mocímboa da Praia, bem no norte da província de Cabo Delgado, distrito para onde o seu pai havia sido transferido pouco tempo antes.

Orientados pela mãe Alfina, os filhos entravam em competição de habilidades para ver quem era o mais rápido nos cálculos matemáticos e no ditado de português. Um dos prémios para quem ganhava a competição era uma dose de lifetse, uma pasta feita com farinha de mandioca e amendoim torrado a que se adiciona açúcar, pilando-se até se obter uma pasta, sendo um doce muito apreciado nas províncias de Gaza e Inhambane.

O ensino básico acabaria por completá-lo na Escola Mouzinho de Albuquerque, no Xai-Xai, após nova transferência do pai. Luísa Body, sua companheira de escola, recorda-se dela gritar: “Luísa, apressa-te, está na hora da escola! E acrescenta: “Gostava de fazer duas tranças com um risco ao meio.”

O sonho de ser contabilista e os primeiros contactos com os nacionalistas

Completado o ensino básico, Josina chegou a Lourenço Marques (hoje Maputo) com 13 anos e um sonho na bagagem: tornar-se contabilista.

A casa da avó materna, Ana Macome, no bairro do Chamanculo, para onde veio viver, era um viveiro de nacionalismo e o engajamento da família Muthemba, especialmente o seu tio, Mateus Sansão, era notório. Nesta altura, Josina frequentava a Escola Comercial situada junto ao Liceu Salazar (actual Josina Machel) e, quando vários elementos da família foram presos, começou a interessa-se pela causa da independência.

Assim, em Março de 1964, foi ela própria detida na então Rodésia, quando tentava juntar-se à guerrilha da Frelimo na Tanzânia.

Na sinistra Vila Algarve – a sede da PIDE, a polícia política do regime português – foi várias vezes interrogada, tendo-lhe sido oferecidas benesses, como bolsas de estudo em Portugal, que repetidamente rejeitou.

Promovendo a emancipação da mulher

Em finais de 1964, Josina deixou lacónico bilhete de despedida à tia Leta, com quem vivia desde a sua libertação, dizendo: “Adeus, receberão informações.”

Finalmente, em Agosto de 1965, já na Tanzânia, começou a trabalhar na administração do Instituto Moçambicano, sendo o braço direito de Janet, a esposa de Eduardo Mondlane. Impressionado com as qualidades da jovem militante, o primeiro presidente da Frelimo entregou-lhe a importante tarefa de organizar a educação política de uma unidade de mulheres na província do Niassa, onde a luta se desenvolvia com particular intensidade.

No II Congresso do partido, que teve lugar em Julho de 1968, Josina foi eleita delegada, defendendo galhardamente a linha traçada pelo Comité Central de promoção da emancipação da mulher. Pouco depois, assumiu a chefia da Secção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores.

Em finais de Setembro de 1968, Samora começou a namorar Josina, segundo o próprio, após “apreciar as suas qualidades, sobretudo, quando abandonou a bolsa de estudos na Suíça para abraçar uma vida dura e violenta.”

O casamento com Samora e o nascimento de Samito

Mondlane, ao ter conhecimento da notícia, aconselhou Samora a casar rapidamente. E assim foi. A 4 de Maio de 1969, no Centro Educacional do Tunduru, Samora Machel casou-se com Josina Muthemba. A companheira e amiga Marina Pachinuapa recorda-se que foi uma grande festa: “Só a Nachingweya chegaram seis camiões trazendo camaradas nossos que iam assistir ao casamento de Josina e Samora. Na preparação, também se deu um episódio engraçado. Na véspera, Samora mandou matar dois porcos para a festa, mas, por engano, os nossos camaradas perceberam mal e mataram doze porcos! As crianças do centro de Tunduru agradeceram o erro que lhes deu tamanha festa.”

Pouco depois, a 23 de Novembro de 1969, nascia o primeiro e único fruto desta relação: Samora Machel Júnior, conhecido por Samito.

A maternidade não afastou Josina do trabalho. As digressões às zonas libertadas do Niassa e Cabo Delgado, ao invés de serem refreadas, foram intensificadas. Um grave problema de fígado começou a minar o seu corpo franzino. Aos 27 anos, o seu estado de saúde era muito débil.

Trocando a saúde pela revolução

A 6 de Março de 1971, Josina partiu para a sua última viagem a Cabo Delgado. Pretendia inteirar-se da realidade vivida pelas crianças dos infantários da Frelimo naquela província. Na sua última intervenção junto da população as palavras saíram-lhe fragmentadas. Ardia em febre. Já na fronteira, de regresso a Dar-es-Salam, tirou a pistola e disse: “Entreguem-na ao camarada dirigente da Província para que sirva de salvação do povo Moçambicano.” E acrescentou: “Camaradas, eu já não avanço mais, mas estou preocupada com a revolução e as crianças.”

No dia 6 de Abril, o seu estado de saúde agravou-se subitamente. Na noite desse dia, acabaria, embora a contragosto, por ser levada por Joaquim e Marcelina Chissano para o hospital de Muthimbili, em Dar-es-Salam, onde acabaria por falecer na madrugada do dia 7 de Abril de 1971, deixando um filho, Samito, com apenas 16 meses.

O vice-presidente da Frelimo, Marcelino dos Santos, na hora da despedida afirmou que Josina teve tanto fervor revolucionário que não teve tempo para cuidar da sua própria saúde. Em Agosto desse ano completaria 26 anos.

Fonte: Sampo MZ

27 de abril de 2014

Moçambique: Património e Lugares com História

Angola: Quedas de Kalandula a natureza sem limites



As Quedas de Kalandula é um dos postais de visita de Angola, Localizadas no rio Lucala, o mais importante afluente do rio Kwanza, são as segundas quedas mais altas de África, com uma extensão de 410 metros e 105 metros de altura.

Fonte: Sapo AO

Companhia holandesa subornou entidades angolanas

 


Luanda - A companhia holandesa SBM Offshore envolvida na exploração de petróleo ao largo de Angola admitiu que poderá ter pago milhões de dólares em suborno a entidades oficiais angolanas. Investigação da empresa confirma haver "evidência" de pagamento a entidades oficiais ou seus familiares.

Os pagamentos poderão ter sido em feitos em dinheiro ou em produtos não especificados “de valor”. A SBM Offshore é uma companhia de serviços que se especializa em plataformas marítimas usadas na exploração de petróleo e gás.

A SBM tinha afirmado em 2012 que estava a investigar supostos subornos feitos por entidades da companhia a entidades no Brasil, Angola e Guiné Equatorial.

Num comunicado divulgado (no sábado, 5), a empresa disse que uma investigação interna não encontrou provas de subornos no Brasil, mas encontrou provas que representantes em Angola e na Guiné Equatorial podem ter subornado entidades dos governos desses países.

“A respeito de Angola e Guiné Equatorial há evidências de que pagamentos podem ter sido feitos directa ou indirectamente a autoridades do governo”, disse o comunicado da companhia que não divulgou, contudo quaisquer, nomes.

O comunicado diz que entre 2007 e 2011 companhias ligadas à empresa usaram “agentes múltiplos” em Angola, incluindo um anteriormente usado para negócios na Guiné Equatorial. “Há alguma evidência que pessoas ligadas a pelo menos um desses agentes eram entidades do Governo angolano ou estavam associados a entidades do Governo angolano,” diz o comunicado que acrescenta:

“Há também alguma evidência de que o agente usado na Guiné Equatorial poderá ter feito pagamentos a entidades do Governo angolano e que outros tipos de valor foram entregues a entidades do governo e/ou a seus familiares”, lê-se no comunicado.

A SBM diz não saber qual a percentagem de um total de 22,7 milhões de dólares de comissões que foi usada como suborno. As investigações foram iniciadas em Fevereiro depois de meios de informação holandeses terem publicado reportagens sobre suspeitas de pagamentos de subornos a entidades brasileiras da companhia Petrobras.

Nesse caso os subornos teriam envolvido mais de 139 milhões de dólares mas a companhia disse que, neste caso, “a investigação não encontrou nenhuma evidência em que a companhia ou algum dos seus agentes tenha feito pagamentos impróprios a agentes do governo”. Foi durante estas investigações que foram detectadas “evidências” de pagamentos a entidades angolanas.

Por outro lado, o conceituado jornal francês “Le Monde” publicou nesta quinta-feira, 3, uma extensa reportagem sobre as relações entre Portugal e Angola em que afirma que Portugal se tornou no que chama de “uma máquina de lavar dinheiro” para Angola e para a Guiné Equatoria.

Fonte: Club-K, 06 abril 2014

Mia Couto, um passeio emocional por Maputo

O escritor moçambicano, biólogo de formação, guia-nos num percurso por Maputo ao sabor da natureza, da história e das suas recordações dos tempos da luta na Frelimo e do "carapau e do repolho".

"Veem estas acácias rubras?", diz Mia Couto ao volante do seu jipe, apontando para as árvores de flores vermelhas que povoam as ruas por toda a cidade. "São a árvore típica de Maputo, mas vieram de Madagáscar. O nome técnico é delonix regia, ou flamboyant. Mas se começo a falar destas coisas que adoro nunca mais me calo... " Corrigimos. Fale por favor, é mesmo essa a ideia. Esta conversa-percurso com Mia por Maputo quer-se emocional, sem guião, feita ao sabor das árvores e das recordações.

Paramos na Avenida Frederich Engels, a rua mais bonita de toda a cidade. Os bancos coloridos voltados para o mar convidam à contemplação, a vista para a baía é deslumbrante. "Aqui desaguam cinco rios. A zona portuguesa estava confluída a uma pequenina faixa de areia ali em baixo, hoje a grande avenida da baixa da cidade era um paliçada militar. Ali começava o território 'dos outros'", conta. "Com a chegada dos boers, o governador português quis fazer de Maputo uma cidade portuária. Fez uma obra monumental, com enormes movimentações de terras, criando esta muralha que ainda existe. Este movimento deu origem ao que chamavam a Nova Buenos Aires, as pessoas vinham encontrar-se com os novos ares que havia na baixa. Ali ficou, até hoje, o centro de gravidade da cidade".

Seguimos viagem para o Jardim dos Namorados, uma zona com lugar de destaque no coração de Mia Couto. Não por razões de amor, mas pela memória da dedicação a uma causa. Ali era ponto de encontro dos casais apaixonados, e onde Mia vinha fazer os encontros secretos do movimento estudantil ao qual pertencia, com ligações à Frelimo. "Fingíamos que éramos mais uns. Como isto é feito em socalcos por ali abaixo, se houvesse algum problema conseguíamos entrar por um lado e sair no outro. A célula secreta a que eu pertencia reunia no jardim, foram os melhores tempos da minha vida. Tinha que fingir que namorava com várias meninas diferentes, vejam a sorte!", graceja. Foi aqui que conheceu Patrícia, que viria mais tarde a ser a sua segunda mulher.

Os pais, portugueses emigrados, viviam na Beira, que era do ponto de vista político e social uma cidade muito diferente de Maputo. "Não era preciso explicar que havia uma coisa chamada subjugação colonial. O meu pai já tinha uma posição muito crítica em relação ao regime, ele saiu de Portugal também já por questões políticas. Era fácil, sem que ninguém fizesse alguma catequização, perceber o que se passava. Era tão gritante a tensão, que acabávamos sem querer por tomar partido pró-moçambicano. Foi uma coisa que aconteceu naturalmente para mim e para os meus irmãos, a vida decidiu por nós." Quando veio para a universidade de Maputo, em 1972, sempre soube que não vinha propriamente estudar. Vinha fazer oposição. "Escolhi o curso de Biologia no catálogo 'O que é que não serve absolutamente para nada?' Então é este! Para mim não fazia nenhum sentido vir fazer a tropa", partilha. Pela Frelimo e pela independência nunca pôde pegar em armas por ser branco. "Naquela altura eu não sabia disso, estava convicto de que vinha lutar."

Continuamos o percurso pelo jardim, e a atenção de Mia foca-se num canhoeiro, a árvore sagrada, onde os moçambicanos depositam as cinzas dos seus antepassados. Nos seus livros, é permanente a relação com os mortos. "Para se perceber África e estas pessoas é preciso perceber essa espiritualidade. Os mortos em África não só não morrem e continuam presentes, como comandam. Determinam. E se não tivermos uma relação de harmonia com eles a vida não vai correr bem", explica. Só se pertence verdadeiramente ao lugar onde estão os seus mortos, disse um dia. "Eu tenho de inventar os meus mortos aqui, porque os meus verdadeiros mortos estão em Portugal. O meu pai morreu há poucos meses e quis ser enterrado lá".

Mas Mia, voltemos à conversa dos tempos da Frelimo. Que sonho era esse? "Era uma causa que eu hoje olho à distância, politicamente já percebi que nos enganámos todos. Não por causa da intenção de fazer um mundo melhor, mas por causa da concretização. Tínhamos um olhar muito ingénuo. Felizmente o mundo é muito mais complexo e cheio de variáveis que nós não dominamos. A ideia de, numa geração, criar uma sociedade nova era algo muito bonito mas desastroso na concretização." Mas foi essa espécie de sentimento épico que lhe proporcionou uma adolescência feliz e preenchida. "Entregámo-nos a uma coisa que era maior do que nós mesmos, era uma coisa generosa. Vejo, nos meus três filhos, que hoje é tudo tão diferente. Faltam-lhes as grandes narrativas, a política que fascina. Hoje a política foi apropriada por interesses tão mesquinhos e tão privados, tão conspurcada pelo oportunismo, que perdeu o brilho."

"Inventa qualquer merda!"

É hora de seguir viagem. Entramos no carro em direção ao Museu de História Natural. E Mia recorda-se de uma história divertida. "Fui uma vez a Paris numa conferência, e precisei de um tradutor, um brasileiro, pianista, muito formal de fato e gravata. Era uma assembleia enorme de mais 400 pessoas, uma coisa séria. E o francês faz-me uma pergunta que demora 10 minutos. Sobre esta coisa da globalização versus não sei o quê, dos nacionalismos e blá blá blá, e eu com o meu francês peço para repetir por favor porque não tinha percebido bem. O tipo repete e demora mais 20 minutos. O brasileiro, sentado numa cadeira pequenina ao meu lado, falando-me ao ouvido para todos pensarem que estava a traduzir, diz-me: 'Não entendi porra nenhuma! Inventa qualquer merda!'. Aquilo ficou como um lema para a minha vida, eu invento qualquer merda!" Gargalhada geral no carro.

Mas Mia, há aí qualquer coisa de português nessa noção muito lusa do 'desenrasca'. É um moçambicano convicto, o que há afinal em si da alma lusitana? "Tenho mescladas em mim várias coisas que são portuguesas, e eu não fujo das minhas origens. Há uma certa nostalgia, uma certa necessidade de ter saudade de coisa nenhuma." E sente que a sua pátria é a língua portuguesa, como dizia Pessoa? "O que eu acho mais bonito na língua é que facilmente deixa de ser portuguesa e facilmente passa a ser misturada, mestiça. Eu vejo a língua como uma coisa viva, em evolução. O acordo ortográfico foi como se não tivesse existido. Irritaram-me as razões que se invocaram, como se fosse uma coisa imperiosa e que daí nascesse algo mais próximo entre nós, portugueses, africanos e brasileiros. Isso é inventado, é artificial, não é por aí. Entristece-me ver a língua como um investimento político e económico."

As conversas são como os cajus, e vão parar ao futuro de Moçambique. "Muitas decisões que são tomadas hoje apenas servem interesses de grupos. Mas não tenho muita esperança que possa ser de outra maneira. A história mostra que foi assim que, ao longo dos tempos, foram criadas as burguesias, o capital nacional, etc. Se houver estabilidade política e social, este país vai crescer. E vai ser, no futuro, um país como os outros todos. Os meus ideais de juventude tiveram de ser ajustados à realidade e às dinâmicas de mudança do mundo. A pior das ditaduras é a da realidade, a do possível. Tive de engolir isto. Não quer dizer que eu não seja feliz a construir este Moçambique, é o Moçambique possível."

Passamos no antigo edifício da câmara, onde esteve a gestão da cidade colonial. Circundamos a estátua de Samora, que substituiu a de Mouzinho de Albuquerque a cavalo. E Mia recorda-se dos "tempos do carapau e do repolho", em que corria a cidade em busca de comida durante a guerra civil. Foi dos poucos brancos lusodescendentes que cá ficaram. No tempo das "filas das pedras", em que se marcavam os lugares para a espera com uma cesta com uma pedra lá dentro, na maior parte das vezes nem se sabia o que estava para chegar. "Parece que vai haver peixe, e ali ficávamos...". E os lugares eram respeitados. "Hoje olho para trás e pergunto-me o que é que se passava em mim para nem sequer levantar a hipótese de sair. Eu tinha filhos, e saía de manhã com a mesma preocupação que tinha toda a população: voltar ao fim do dia com alguma coisa para eles comerem. Mas era muito curioso. Quando se diz que a miséria moral nasce da miséria material, não acho que seja verdade. Quando se apanhava qualquer coisa, era tudo distribuído pelos familiares. Chamávamos os vizinhos, havia uma genuína partilha do pouco que existia."

Salvo pela poesia

E foram tantos os momentos de aventura nos tempos de oposição. Como aquele em que se ofereceu para ser membro da Frelimo, e foi aceite numa cerimónia secreta. "Fui para uma casa à noite, nem pude ver qual era o caminho para não saber onde ficava. Quando cheguei lá, os candidatos tinham de contar uma história que era a 'narração do sofrimento'. Cada um tinha de mostrar quanto sofreu para merecer a honra de estar ali. E todos tinham razões profundas, e eu, que fui o último a falar, não tinha nada. Era um privilegiado, uma pessoa feliz. Estava aflito, comecei a pensar 'tenho de inventar um sofrimento instantâneo'. Mas quando me pus em frente da assembleia, o fulano reconheceu-me e perguntou 'você é aquele que publica aqueles poemas no jornal! Ah, você é poeta! Precisamos de vocês!' E não tive de contar história nenhuma. A poesia afinal tinha algum serviço. A mim salvou-me!"

Nunca teve medo, sendo um branco lusodescendente, nem nunca sentiu racismo. "Todos conheciam a minha ligação ao partido. Mas tive medo, porque esta guerra era absurda, morria-se sem razão aparente. Uma vez saí da cidade sozinho, para fazer uma inspeção dos estragos de um petroleiro que tinha naufragado, e quando voltei senti um silêncio absoluto que me preocupou. O jipe enterrou-se na margem do rio, e passou um fulano que me disse: 'Você saia daqui imediatamente, isto está um caos, a Renamo está à porta'. Deixei o jipe, veio um amigo dele com uma canoa que me levou, e aí percebi que vivíamos uma guerra aqui muito próxima e que às vezes nos esquecíamos dela. Uma colega minha foi assassinada a cinco quilómetros da cidade."

Chegámos ao museu de História Natural, um edifício inspirado no estilo manuelino. Dois animais embalsamados guardam a porta. Ao fundo, impõe-se colorido um painel de Malangatana para onde nos dirigimos. Mia conta histórias de outros tempos com o pintor. "Ele era um 'homem show'. Além de pintar, cantava e dançava, usava a barriga como tambor. Uma vez estive com ele uma vez numa conferência no estrangeiro, e no último dia veio dizer-me que o programa tinha sido alterado para se incluírem cantares moçambicanos na sessão de encerramento. E eu perguntei 'olha que giro, quem é o grupo que vem cantar?'. Ele olhou para mim e disse 'o grupo? Então, sou eu e tu!'. Fiquei aflito, tentei explicar-lhe que não cantava. Mas para ele não era possível uma pessoa não cantar. Toda a gente canta!", conta. Para Mia, Malangatana foi um exemplo de alguém que se entregou de alma e coração a uma causa, sem nunca ter feito uma declaração de amargura pelos momentos difíceis que viveu.

Uma planta no jardim chama a atenção de Mia. É uma cica. "Já viu isto? São células sexuais nuas e reproduzem-se só pelo vento. Foi feita no momento em que a natureza ainda não sabia desenhar flores. Inventar a cores, os formatos, os desenhos foi um trabalhão enorme e veio muito depois."

Entramos no museu, uma mostra estática, com uma coleção de animais africanos embalsamados. Elefantes, impalas, leões pousam numa savana improvisada. Mas Mia destaca a coleção de dezenas de fetos de elefante embalsamados, nos vários estágios de gestação. "É um exemplo da crueldade em nome da ciência. Mataram milhares de fêmeas para apanhar os 20 meses de gravidez...".

Seguimos para a zona dos artefactos tribais, tanto macuas, o grupo étnico mais numeroso do país, como macondes. "Algumas destas culturas são do interior, que só muito recentemente tiveram contacto com o litoral. O que deu azo a algumas expressões muito poéticas. Pescar eles dizem caçar peixe, e barco a vapor chamam comboio da água", explica Mia.

Mostra um peixe de dois metros, o selecante, uma espécie em vias de extinção típica do norte, que vive em águas muito profundas. "Antigamente estes povos imaginava-se que existia um ser como este que faria a transição entre o mar e a terra, com barbatanas adaptadas para a locomoção. Imaginaram com tanta intensidade que o desenharam, e era quase isto que está aqui. Foi descoberto pela primeira vez na década de 50, e só agora é que se conseguiu provar que existia mesmo. É a imaginação a anteceder, a superar a natureza."

Saímos para a rua e Mia mostra uma árvore de madeira preciosa. Faz-lhe festas no tronco suave. "É lindíssima, não é? Gosto muito desta árvore. Quando vou para fora e não sei os nomes das árvores, sinto-me totalmente perdido. Elas não falam comigo." Encontra um jardineiro, um velho conhecido. Cumprimentam-se com um ritual de apertos de mão, "à boa maneira africana". "Por aqui os homens podem falar mão na mão, andar abraçados. Aqui o toque é normal, faz parte da comunicação." E é, "à boa maneira africana", com um abraço, que nos despedimos de Mia.
Fonte: Expresso, 29 de Abril de 2013

9 de abril de 2014

Moçambique: Elevar a capulana a outro nível


Ontem, com o Mozambique Fashion Award, a capulana foi elevada a outro nível. Num evento completamente dedicado ao uso do traje tradicional, Maria da Luz Guebuza foi também homenageada tanto pela utilização que faz da capulana como pelo seu papel de destaque na sociedade.


Fonte: Sapo MZ