No segundo volume das suas memórias políticas - Transição para a Democracia é o título - que será colocado à venda amanhã, Freitas do Amaral revela que Mário Soares quis incluir o PCP no acordo que em 1978 levou ao CDS ao poder em coligação com os socialistas.
A ideia do fundador do PS só não foi para a frente devido à feroz oposição do CDS. "Nós não podemos aceitar qualquer compromisso vosso [dos socialistas] com o PCP. Já é difícil, para muitas bases do CDS, engolir um acordo com o PS; agora com o PS e com o PCP, é impossível", argumentou Freitas.
O Governo PS/CDS acabaria por cair no Verão de 1978, vítima das suas próprias contradições ideológicas, com Freitas do Amaral a queixar-se de que os socialistas "só concediam uma parcela mínima de partilha do Poder".
Nas suas memórias, o ex-líder do CDS afirma que a agitação comunista, que incluiu "uma lavagem ao cérebro dos portugueses" através dos órgãos de Comunicação Social, acabou por se virar contra o PCP, possibilitando a vitória daquilo que classifica como "o Bloco democrático", que incluía o PS, PSD, CDS, a Igreja Católica, a Confederação dos Agricultores Portugueses e os militares "adeptos de um regime democrático autêntico", nomeadamente o chamado "Grupo dos Nove", em que pontificava Melo Antunes.
"O sentimento anticomunista, em regra privativo da direita, penetrou até ao âmago do Partido Socialista, cuja ala mais à esquerda (Lopes Cardoso, Manuel Alegre e tantos outros) não poupou, então, críticas ao PCP, denunciando a sua tentativa de tomada do poder por via insurrecional", conta Freitas.
Foi a convicção de que o Bloco Democrático acabaria por sair vitorioso da batalha com os comunistas que levou Freitas a conduzir o CDS à aliança com o PS de Mário Soares em finais de 1978, na sequência da queda do I Governo Constitucional.
Diário de Notícias 2008-10-19
