30 de março de 2015

Ler (José Craveirinha) uma belíssima poesia nossa irmã (Isabel Pires de Lima)



José Craveirinha, poeta moçambicano recentemente falecido, aos 80 anos, é uma das vozes fundadoras da literatura moçambicana. Xigubo(1964) foi o seu primeiro livro, logo apreendido pela PIDE, ao qual se seguiram muitos outros de que se destaca Karingana ua Karingana, Cela 1, Maria. Muito premiado nacional e internacionalmente (prémio Camões em 1991), foi um embaixador da literatura moçambicana no mundo.
 
A sua poesia canta a revolta, a raiva, o amor, a solidariedade e faz a denúncia frontal da injustiça social e racial, como testemunham estes versos do poema "Grito negro":
 
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha
Combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

PCP foi "tragédia" no processo de descolonização - Pacheco Pereira



O historiador português José Pacheco Pereira considera que a intervenção do PCP em Portugal e junto dos movimentos independentistas nas ex-colónias portuguesas em África foi "trágica" para a história recente desses países.
 
Pacheco Pereira considera que "a herança, quer do colonialismo, quer do PCP, enquanto partido comunista nas colónias portuguesas, é de facto trágica".
 
Numa palestra subordinada ao tema "As relações dos movimentos de libertação com a oposição portuguesa", Pacheco Pereira defendeu ainda que um debate desapaixonado sobre a história recente pressupõe a emergência de uma "nova geração" e a abertura dos arquivos do PCP e de partidos como a FRELIMO (Moçambique) e MPLA (Angola).

Um pedaço de terra prometida em Cabo Delgado - A Mina do Pai Tomás



Escrito por Carnício Fijamo colaboração da Unidade de Jornalismo Investigativo (em formação).

Poeira, poluição sonora, álcool, suruma, prostitutas, uma babilónia de línguas fazem de Namanhumbir um local único em Moçambique. O comércio funciona sem parar, o garimpo do rubi traz os jovens de olhar incandescente e muita força nas pernas para fugir às balas da polícia. A internet celebra as gemas vermelhas de Montepuez e diz que elas vão destronar rapidamente as pedras asiáticas.

Em circunstâncias normais,  Nanhupo seria apenas uma curva no alcatrão impecável que liga Montepuez a Pemba, na nortenha província de Cabo Delgado. Porém, a “febre do rubi” transformou este bocado de estrada num dos postos comerciais mais exuberantes do país.

Os moçambicanos vêm de todo o lado. Mas há também forasteiros. Da Tanzânia, sobretudo, mas também da Guiné, do Senegal, do Mali, dos Grandes Lagos. Em cada barraca explodem os decíbeis da aparelhagem, chamariz da clientela. Há televisão por satélite, para ver os jogos do Mundial de futebol. Quem quer sentar paga cinco meticais. Há peixe seco, peixe frito, nipa de cana, galinha, roupa xicalamidade, suruma e haxixe.

Nas Águas do Tempo (Mia Couto)



Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
 
- Mas vocês vão aonde?
 
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem...
 
- Voltamos antes de um agorinha, respondia.
 
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fica amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Cervejas de Moçambique

O 25 de Abril de 1974 em Cartoons

28 de fevereiro de 2015

Moçambique: Catálogo de Turismo Para o Ano de 2015


"Se Necessário o Exército Atirará Sobre os Colonos Brancos"

 
Entrevista a Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros
 
O Ministro dos Negócios Estrangeiros português Mário Soares sobre a descolonização em África
 
SP – Sr. Ministro, o Governo Provisório está em vias de conceder a independência às colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Há portugueses que se interrogam se este Governo de Transição, que não foi eleito pelo povo, mas empossado por um golpe militar, tem legitimidade para tomar uma decisão tão histórica.

MS – Isso nos perguntámos logo a seguir à revolução de 25 de Abril. Ponderamos se a descolonização se deveria fazer apenas após eleições regulares. Mas verificou-se que o problema era candente, que dificuldades e demoras surgiam no processo. E assim convencemo-nos que precisávamos de nos apressar.
 
SP – Há portugueses que julgam que o Sr. se tenha apressado demais – como em tempos os belgas ao se retirarem do Congo.
 
MS – Estamos há 3 meses no governo, e entretanto fizemos contactos e progressos, mas não creio que tenhamos sido demasiado apressados. Pelo contrário. A situação em Angola, que nos últimos tempos se tornou explosiva, prova que talvez não tivéssemos andado suficientemente depressa.
 
SP – Sobre as condições de independência o Sr. negoceia exclusivamente com os movimentos de libertação africanos. Na sua opinião eles são os únicos legítimos representantes das populações nas colónias?
 
MS – Bem, se quisermos fazer a paz – e nós queremos sem demora a paz – temos que falar com os que nos combatem. Isto não implica uma avaliação política ou ética dos movimentos de libertação, mas resulta da apreciação pragmática de determinada situação. E quem nos combate na Guiné? O PAIGC. Assim temos de falar com o PAIGC. Quem nos combate em Moçambique? A Frelimo. Assim temos de falar com a Frelimo.

A Descolonização Portuguesa Contada Por Mário Soares

 
 
Ministro dos Negócios Estrangeiros logo após o 25 de Abril de 1974 (I, II e III Governos Provisórios), Mário Soares, em entrevista com Dominique Pouchin, apresenta a sua versão sobre o processo de descolonização.

Na medida em que nele foi parte activa, editamos aqui o que faz registar sobre o assunto.
Referência bibliográfica:
 
Mário Soares. Memória viva. Entrevista com Dominique Pouchin. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2003 (Biblioteca "Primeiras Pessoas"- vol. I).
 
A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
 
- A revolução nascera das guerras coloniais, e a primeira das urgências era pôr fim a essas guerras. Nessa altura o senhor começa a negociar com cada um dos movimentos nacionalistas. Começou, de certa forma, pelo mais fácil, pela Guiné, a seguir trabalhou em relação a Moçambique, e finalmente Angola. Como se passaram as coisas com os Guineenses?
 
É preciso começar por dizer que não existia uma visão política homogénea no seio do governo provisório. Na ausência de coordenação, cada um fazia mais ou menos aquilo que entendia. Quando aceitei a pasta dos Negócios Estrangeiros, tinha uma ideia para levar a bom termo a descolonização. Pretendia fazer assinar rapidamente um cessar-fogo nos territórios em guerra, para acabar com ela localmente. Mas tinha de respeitar o presidente Spínola, o qual possuía os seus próprios pontos de vista nessa matéria. Ele desejava a constituição de um processo sob controlo armado, para chegar a uma espécie de "Commonwealth portuguesa". Numa altura em que a opinião pública apelava à manifestação nas ruas a favor das independências, da fraternidade e da paz, isso era claramente impossível. A população reclamava o regresso dos seus soldados ao País. As tropas portuguesas estacionadas no Ultramar começavam, também elas, a confraternizar com os nacionalistas. A política de Spínola era, por conseguinte, irrealista. Do lado oposto, havia a visão do Partido Comunista. Convém lembrar que, naquela época, nos aproximávamos do período da máxima expansão da União Soviética no Mundo. Os comunistas portugueses desejavam fazer entrar as antigas colónias portuguesas na esfera de influência soviética, uma vez que elas albergavam no seu seio movimentos de tendência comunista. Estávamos então em 1974. Finalmente, uma terceira tendência era a que preconizava Melo Antunes, um tenente-coronel do Exército português e ao mesmo tempo um intelectual, que me sucedeu no ministério dos Negócios Estrangeiros. A sua ideia de descolonização negociada estava mais próxima da minha, sem ser exactamente a mesma. Ele era muito "terceiro-mundista". Então cada um começou a trabalhar para seu lado.

Criatividade

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 Fonte: Internet

Moçambique: Conjunto Musical Os Inflexos



Hoje falamos de um grupo que já se havia afirmado na cena musical moçambicana desde 1966 e continuaria a estar em evidência até 1971.

O seu grande obreiro foi Carlos Alberto Melo, nascido a 2 de Junho de 1939 em Lisboa, com quem conversámos recentemente e que nos deu vários detalhes, fotos, músicas e videos de Os INFLEXOS, que hoje publicamos neste "Destaque da Semana".

Carlos foi para Moçambique ainda criança e aí foi crescendo sempre com o bichinho da música e de vir a tornar-se cantor.

A sua primeira aparição em público acontece em 1958 no Clube Naval de Lourenço Marques, numa festa de estudantes.

Carlos sonhava um dia formar o seu grupo musical, para o qual até ja tinha escolhido um nome.

Sonhos adiados, porque acabados os estudos no Liceu foi para Lisboa estudar Direito.

A greve e crise estudantil de 62 leva-o a perder o ano e é convocado para prestar serviço  militar.

Em 1961 havia rebentado a guerra em Angola e o Governo envia um grande número de militares para a colónia. Foi uma razia nas Faculdades, de tal forma que os Reitores se insurgiram e conseguiram que em 63 saísse legislação para proteger os estudantes, com uma fórmula que adiava a incorporação permitindo a finalização dos cursos até uma determinada idade.

12 de janeiro de 2015

Moçambique: Paz é inseparável da independência - visão de Samora Machel

 
 
Paz é inseparável da independência - visão de Samora Machel que se estivesse vivo completaria hoje 75 anos de idade (2008)

A PAZ é inseparável da independência – visão de Samora Moisés Machel, primeiro Presidente de Moçambique, figura carismática que, se estivesse vivo, completaria hoje 75 anos de idade. Peça incontornável na história da luta armada de libertação nacional, Samora Machel mostrou esta sua visão à delegação colonial portuguesa, liderada pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares,  quando em Lusaka foi proposto à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) um cessar-fogo e consequente realização de referendo para decidir se os moçambicanos queriam ou não a independência. Samora recusou a proposta e expandiu as operações militares, facto muito propalado pela Imprensa,  levando Lisboa a mudar de atitude até assinar em 7 de Setembro de 1974 os Acordos de Lusaka.

Lisboa salvaguarda vestígios da nau portuguesa do século XVI descoberta ao largo da Namíbia



Lisboa, 01 Out (Lusa) - Lisboa garantiu hoje o seu interesse "fundamental" na protecção dos vestígios de uma nau portuguesa do Séc XVI descoberta na costa da Namíbia, reagindo a notícias que davam conta de ela poder em breve ficar submersa.
 
Num esclarecimento à Comunicação social, o Ministério da Cultura reage "ás notícias tornadas públicas nos últimos dias", lembrando que já no início de Setembro ficou "claro que o interesse fundamental do Governo português era o de assegurar a integral salvaguarda dos vestígios em questão".
 
Foi também em Setembro que os Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros decidiram enviar ao local - a interface costeira de Oranjemund - dois técnicos portugueses do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (os arqueólogos Francisco Alves e Miguel Aleluia), salienta a nota.
 
A Agência France Presse noticiou no sábado que os destroços da nau portuguesa descoberta em Abril ao largo da Namíbia "serão devolvidos proximamente ao oceano sem ter podido revelar todos os seus tesouros devido aos elevados custos para serem retirados das areias subaquáticas".
 
O Jornal Público puxou o assunto para a sua capa na edição de segunda-feira com o titulo "Caravela com 500 anos em risco de ser submersa na costa da Namíbia", citando no artigo a notícia avançada pela France Presse.
 
"Mais de 2.300 peças de ouro pesando cerca de 21 quilogramas e 1,5 quilogramas de moedas de prata foram encontradas a bordo, num valor de mais de 100 milhões de dólares", explicava numa recente visita ao local o arqueólogo Francisco Alves, maravilhado com o valor cultural desta descoberta, "sem preço", citado pela France Presse.
 
O sítio dos achados está a céu aberto graças a um cordão dunar criado artificialmente - uma baía com cerca de 90 m2 a seis metros abaixo do nível do mar.
 
Por influência das alterações atmosféricas, normais nesta época do ano, no Atlântico Sul, ficou acordado que os trabalhos deveriam ficar concluídos a 2 de Outubro. Neste momento, com novas previsões meteorológicas é possível alargar o prazo dos trabalhos até 10 de Outubro, refere o Ministério da Cultura.
 
A equipa de arqueólogos portugueses acompanhará assim "a remoção dos achados até à sua conclusão", assegura a nota.
 
Devido à sua "reconhecida capacidade técnica e científica", os dois técnicos participarão também na investigação, valorização e divulgação dos achados.
 
Lisboa lembra que o governo namibiano convidou o Estado português a participar nos trabalhos de salvamento da nau portuguesa e que esse clima de "total cooperação e empenho" foi reiterado num encontro recente à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, entre os representantes das diplomacias dos dois países.
 
Deste encontro resultou a deslocação a Portugal do ministro dos Negócios Estrangeiros da Namíbia, em data a agendar, adianta o comunicado.
 
TM.
Lusa/Fim, 01 de Outubro de 2008

9 de janeiro de 2015

Conto de Natal: -u-cão de fogo (Altino Serrano, Cidade da Praia)



Jacinto era uma criança feliz de sete anos, que vivia em Chã das Caldeiras, na Ilha do Fogo, em Cabo verde. Nasceu a 25 de dezembro, dia em que celebrava o Natal e o aniversário. A sua terra era um paraíso de frutas e alegria: em casa, entre pais e irmãos, na escola, com os companheiros e no campo, com os animais e, especialmente, Bobi, o cão do qual nunca se separava.

Mas houve um ano em que não teve festa de Natal nem de aniversário. É que o vulcão da sua ilha zangou-se, começou a descer o monte, ameaçando a felicidade de Jacinto. Em poucos dias, tudo engoliu o vulcão: a casa, a igreja, a escola, os campos… Chã das Caldeiras, arrasada, desapareceu engolida pelo fogo e levada para o ventre da Terra como Jonas para o da baleia!

A maior dor de Jacinto foi não ter salvado Bobi, o cão, trancado no quarto, pela lava que entrou casa adentro!

Os pais ficaram sem nada. A família foi deslocada para outra parte da ilha. Mas nada aí encontrava do seu paraíso perdido… Ao fim de uns meses, como outros foguenses ao longo da história, a família partia para os Estados Unidos, a “terra prometida” de muitos cabo-verdianos. E, numa manhã, raiada de luz, desembarcam em Ellis Island, em Nova Iorque, recebidos pela estátua da liberdade.

São levados para as margens do lago Erie, onde Jacinto, no início, parecia imaginar a sua ilha, feliz, e reencontrar o monte do vulcão, a água do mar, a verdura do campo, os animais… Apenas Bobi lhe não saia da cabeça e nada lho fazia esquecer.

Jacinto cresceu, estudou e especializou-se em geologia: queria conhecer o interior da Terra, seus segredos e mistérios…

Era agora um homem maduro e, aos sábados, de verão e de inverno, o seu passatempo era pescar no grande lago e ver o seu filho, Roby, brincar na relva e andar de bicicleta… Aí tinha a impressão de estar na sua ilha. Por vezes, vinham-lhe à mente ecos da verdade cabo-verdiana, ouvida sempre, “não há partida sem regresso…”.

Nessa altura, houve um inverno com tanta neve e frio que não puderam dar o passeio durante três sábados. Foi na véspera de Natal que voltaram ao lago. Havia blocos de gelo por toda a parte. Roby passou a tarde a brincar com eles. Mas gostou especialmente de um, muito transparente, que parecia uma casa e, no meio, era muito vermelho. Parecia que tinha fogo. Pegou nele enquanto o pai pescava e, sem que ele visse, zás… meteu-o no saco térmico do pescado.

De regresso a casa, foi a ceia de Natal com a família alargada, os tios, os primos, que cheaeram de outras regiões… Roby e os primos ouviram histórias de Cabo Verde, da Ilha do Fogo, da vinda dos mais velhos, depois do vulcão do grande Novembro. Cansados, já tarde, todos foram deitar-se.

Era a hora de Jacinto ir pôr as prendas na árvore de Natal, no salão. Ao entrar, dá de caras com um vermelhão num ramo. Uma prenda, que já lá estava… Era um cão de fogo que, em suave melodia da sua infância, lhe canta e conta:

– Atravessei o ventre da Terra, dentro da tua casa, o fogo, a água e o gelo do lago, onde Roby me tomou. E sem ele ver, plantei-me aqui: sou um presente do mistério da vida, da terra e da poesia… para ti!

Sem palavras, Jacinto limpa duas lágrimas furtivas, que não contém.

Altino Serrano

Cidade da Praia, Cabo Verde

Recebido por email pelo autor. Altino Serrano é pseudónimo.
 

Madjangula Ya Lembe Le'Djimpsha (Engº Pimentel dos Santos, 1974)

 
 
Fonte: Arquivo Pessoal
 

Maputo: Bairro da Malhangalene

 
 
Fonte: Arquivo Pessoal