13 de maio de 2026

Portugal: Canal História Estreia Série Sobre Lisboa Subterrânea (11 de Novembro de 2008)

 


O canal História vai assinalar o décimo aniversário em Novembro com uma renovação de imagem e a estreia de uma série de 12 episódios de produção própria – «Lisboa debaixo de terra» –, que vai para o ar no dia 10 de Novembro, pelas 21:00 horas, de acordo com o anunciado em conferência de imprensa esta terça-feira.

O programa, realizado por Inês Velho da Palma, vai mostrar os esconderijos, as criptas, as fortalezas e os mistérios que se escondem por baixo da capital, encerrando histórias da História.

«Este ano o canal História comemora 10 anos de emissão. Foram dez anos de compromisso, o que nos levou a aumentar a aposta na produção nacional», afirmou Mercedes Rico, directora de programação. «A História está viva, constrói-se dia a dia», acrescentou.

O presidente da Câmara de Lisboa manifestou a sua gratidão relativamente ao novo programa do canal. «É uma grande oportunidade quando uma instituição da envergadura do canal História, presente em vários países, dedica 12 episódios a histórias locais», declarou o presidente António Costa, que destacou o papel pedagógico do canal. «Só conhecendo aprendemos a respeitar e a conservar», comentou.

No primeiro episódio, o programa vai visitar o Pátio dos Quintalinhos, cuja entrada se situa na Rua das Escolas Gerais. Trata-se de um local de grande importância histórica, já que foi ali que D. Dinis fundou a primeira universidade de Lisboa – «Estúdio Geral» –, em 1290.

Posteriormente, o programa visitará outros lugares como o Refúgio da Patriarcal, as Ruínas do Teatro Romano, os Fornos de El-Rei, o Forte do Alto do Duque, o Antigo Convento de Corpus Christi, o Palacete Rústico de Meados do séc. XIX, o Bairro Estrela D´Ouro, o Padrão dos Távoras e as Galerias Romanas.

O canal História também assinala o seu aniversário com a reformulação da sua imagem, a partir de 4 de Novembro.

O logótipo vai ser alterado e a temática dos conteúdos vai ser mais abrangente, com a introdução de programas que vão abordar a arqueologia, a cultura pop, a astronomia, entre outros.

Aos sábados e domingos, o canal emitirá especiais de programação com os 15 documentários mais aplaudidos pelo público.

Em Novembro, o canal estreará ainda o programa «Luta no Jurássico», que pretende recriar, à luz de investigações e descobertas recentes, os duros combates que tiveram lugar neste período.

Pedro Resendes
Diário Digital 2008-10-21

República de Moçambique: Mortos na guerra colonial resgatados 42 anos depois (21/11/2008)



S. Miguel do Outeiro enterra restos mortais de dois soldados que lutaram em África

 
Dois soldados de S. Miguel do Outeiro mortos em combate, em 1966, vão ser finalmente trasladados dos cemitérios de Mueda e Nova Freixo, em Moçambique, para a terra natal. Serão sepultados no dia 14 de Dezembro.

As famílias do 1º Cabo Aníbal Rodrigues dos Santos e do Soldado Ernesto Correia Dias, nascidos e criados em S. Miguel do Outeiro, concelho de Tondela, nem querem acreditar que o "nó" que lhes "aperta" o coração há 42 anos está prestes a "desatar-se".

"Trazer os restos mortais do meu irmão para casa, para a terra onde nasceu, é um sonho que está à beira de concretizar-se. Só é pena que os meus queridos pais já não estejam entre nós para um derradeiro adeus. Morreram com aquele filho, que nunca mais viram, atravessado no peito", diz Franklin Santos, irmão do 1º Cabo Aníbal, com a voz entrecortada pela emoção.

O mesmo sentimento é partilhado por Armando Dias, irmão do Soldado Ernesto Dias, que conta os dias e as horas que faltam para a mãe de ambos, hoje com 87 anos, poder finalmente despedir-se do filho que um dia viu partir para a guerra colonial.

"Éramos cinco. Mas nenhum de nós conseguiu apagar o sofrimento e a saudade dos nossos pais pelo filho que morreu em Moçambique. Agora vamos ter um sítio para pôr flores de saudade", desabafou.

Cerca de três mil militares que morreram em combate ficaram sepultados nas antigas colónias. Trazer os seus corpos para a terra natal, era um gesto só ao alcance dos ricos. "Até 1968 pediam 13 contos, na moeda antiga, para transladar os restos mortais. Uma fortuna que as famílias mais humildes não podiam suportar", explica Moreira Marques, presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel de Outeiro.

A liderar o processo de trasladação, a pedido dos familiares, o autarca admite que essa tarefa custará muitos milhares de euros. Despesa que será assumida pelas famílias, com a ajuda de particulares, Junta de Freguesia, Câmara de Tondela e outras entidades.

Moreira Marques parte para Moçambique a 30 de Novembro. Regressa a 13 de Dezembro com as ossadas dos dois militares, em caixões de chumbo, que serão enterradas pelas 11 horas do dia seguinte, no talhão dos combatentes, no cemitério de S. Miguel do Outeiro.

Teresa Cardoso
Jornal de Notícias 2008-11-21

Portugal: Guerra Colonial - Ao Sabor do Vento: Deixar Para Trás (9 de Abril de 2008)

 


Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País. Não podem ser abandonados à sua sorte.
 
Sou de uma geração que já não viveu a Guerra Colonial. Não tenho, por um lado, experiências traumáticas de familiares que por terras de África tivessem perecido nem, por outro lado, à minha volta se viveram radicalismos ideológicos de qualquer cor, na discussão sobre as razões de ser desse tempo. Talvez por isso, beneficio – creio – de alguma distância crítica em relação ao tema dos ex-combatentes e, porventura, um olhar desapaixonado que permite maior objectividade.

E que se vê desse posto de observação? Acima de tudo, descobre-se esquecimento que é das formas mais duras da injustiça. Emerge, então, uma sensação de desconforto pela forma como, enquanto comunidade e País, nos portámos em relação a estes homens. Chega mesmo a tocar a vergonha.

Muitos dos ex-combatentes e suas famílias pagam ainda hoje uma factura muito elevada, no corpo e na mente, em consequência dessa experiência difícil. Os fantasmas da guerra não os deixam descansar. E enquanto sofrem o peso dessa herança, não sentem dos seus compatriotas e do Estado que serviram um reconhecimento suficientemente condigno, sem aproveitamento ideológico, com o respeito que merecem.

E onde radica parte dessa falta de respeito? Em grande medida, na confusão lamentável entre o julgamento ideológico de um regime político e a condenação ao esquecimento dos que, sem dolo, serviram debaixo de uma bandeira. Não há erro maior.

Quem combateu nas ex-colónias portuguesas – na sua esmagadora maioria – não o fez de livre vontade. À alternativa da deserção, muitos entenderam dizer não, por considerarem ser uma traição aos seus. Outros, mais prosaicamente, não conseguiram partir para o exílio a tempo. Restou-lhes então receber a guia de marcha e partir para o mato, passando a experimentar ‘aquele inferno de matar ou morrer’.

Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País, com maior ou menor convicção, executando uma política da qual não eram autores nem co-responsáveis. Não será necessário recordar que não vivíamos em democracia e a formulação da decisão política não resultava da voz do povo. Salvo eventuais autores de crimes de guerra, cometidos nesses anos, e que mereceriam o julgamento que a própria disciplina militar prevê, os ex-combatentes são, acima de tudo, cidadãos portugueses que obedeceram, com risco de vida, a um desígnio político do regime vigente. Foram servidores do País e assim devem ser tratados. Sem subterfúgios, nem equívocos.

O gesto de reconhecimento aos ex-combatentes não equivale, como alguns gostariam, a branquear os erros do regime anterior, a apelar a um saudosismo bacoco ou a ir mais longe para territórios racistas e neo-colonialistas. Nada disso. Trata-se somente de não abandonar os nossos homens, sobretudo depois do combate. De não os deixar desaparecer na névoa do esquecimento. Um povo digno não os deixaria para trás.

Rui Marques
Correio da Manhã - 09 Abril 2008