14 de setembro de 2024

Moçambique: Fotografias da Independência 25 de Junho de 1975

Fonte: Arquivo Pessoal
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Moçambique. Fotografias da Independência 25 de Junho de 1975

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Moçambique: Fotografias da Independência 25 de Junho de 1975

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Moçambique: Fotografias da Independência 25 de Junho de 1975

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7 de setembro de 2024

Portugal: O 25 de Abril de 1974 e as Independências Exemplares do Império Colonial Português


Quanto «às independências ditas exemplares pelos vendilhões da Pátria Portuguesa, pelos traidores e cobardes do 25 de Abril de 1974», o povo português que vivia na ex-colónia de Moçambique (de todas as raças e crenças), logo a seguir ao 25 de Abril, foi obrigado a entregar as armas que tinham em casa (os que as tinham), mediante a ameaça que JOAQUIM CHISSANO fez através da rádio, que se não as entregassem, imediatamente mandaria chacinar os portugueses pelos marginais.

Mesmo assim, depois de as armas serem entregues, os portugueses foram todos enganados e sem aviso prévio, sem nada o prever, ordenaram a sua perseguição, a sua crucificação, a sua chacina, a sua matança.

O povo português ficou desarmado, indefeso e à disposição das hordas de assassinos, de grupos de maltrapilhos e analfabetos que assolaram a capital, as vilas, as aldeias e as cidades dos arredores, aliás todo o território moçambicano foi invadido por estes criminosos, dizendo que estavam a cumprir ORDENS recebidas dos seus "SUPERIORES" (os de Moçambique e os de Lisboa).

Armados de catanas, metralhadoras, baionetas e outros materiais contundentes, perseguiram o povo português nas casas, nos empregos, nas escolas, nos templos religiosos, nos hospitais, nas machambas, nas ruas, em todo o lado onde estivesse para o chacinar.

Estupraram milhares de mulheres, crianças e idosas, perante a impotência dos homens da família, porque eram manietados, acorrentados, ameaçados com catanas e baionetas, eram obrigados a assistir a estas crueldades horrendas, para depois no fim serem todos chacinados e esquartejados, morrendo assim milhares num conflito hediondo de que o povo português foi a principal vítima.

Nos cemitérios vandalizaram jazigos, campas, caixões e os mortos foram profanados.

Os “superiores de Moçambique e os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria – os de Lisboa”, ordenaram estas chacinas, para que o povo ficasse aterrorizado e fugisse imediatamente de Moçambique, para lhes serem confiscados todos os seus bens - os portugueses ficaram sem nada, ficaram despojados de todos os seus haveres.

“Os superiores de Moçambique” não queriam que os portugueses ficassem em Moçambique depois da Independência (obtendo a nacionalidade moçambicana e continuando a viver a sua vida no Moçambique Independente), e também “os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria” – os de Lisboa, não queriam os portugueses, os retornados de Moçambique em Portugal.

Não foi o cobarde, o traidor de Portugal, o vendilhão da Pátria – Mário Soares - que disse para que atirassem os portugueses, os retornados de Moçambique, dos aviões para o mar para que fossem comidos pelos tubarões?!

Quando os Soldados Portugueses que ainda se encontravam em Lourenço Marques, a seguir ao 25 de Abril, mesmo que presenciassem violações, roubos e mortes e os portugueses lhes imploravam socorro, eles faziam chacota, palitavam os dentes, mascavam chuingas, fumavam e cuspiam para o chão, cruzavam e descruzavam os braços ou as pernas, viravam costas, ficavam indiferentes, em posição de descanso, quer vissem desmembrar crianças (como aconteceu na Ponte Pinto Teixeira), violar mulheres à frente de todos ou rebentar as portas das cantinas, das casas ou das flats, para matar os donos e roubar-lhes tudo, diziam: “São Ordens de Lisboa”.

E a procissão de veículos, carros, camiões, motorizadas e jeeps (Lourenço Marques/Matola) regados com gasolina a que deitavam fogo depois de trancar as portas com os seus ocupantes lá dentro, filas intermináveis de veículos a arder, tudo em labaredas gigantescas, fumos imensos negros e densos, cheirando a carne queimada por toda o lado, parecia que Lourenço Marques, as suas vilas, as aldeias e as cidades nos seus arredores, iam desaparecer do mapa, num inferno dantesco, um autêntico apocalipse.

As pessoas que eram apanhadas vivas, enfiavam-lhes pneus dos carros pelas cabeças abaixo, que lhes imobilizavam os braços, ficavam logo em asfixia, penduravam-nas nas árvores, regavam-nas com gasolina e deitavam-lhes fogo, uns autênticos archotes humanos. 

Foi um espetáculo horroroso e diabólico que preencheu os 250 quilómetros que medeiam entre Lourenço Marques e a cidade de João Belo.

Em Lourenço Marques e nos seus bairros limítrofes (Mahotas, Infulene, Aeroporto, Malhangalene, Mafalala, Benfica, Xipamanine, etc.), muitas casas foram incendiadas com as pessoas lá dentro, outras conseguiram fugir e andaram refugiadas no centro da cidade de Lourenço Marques, onde foram acolhidas em casa de familiares, em casa de pessoas conhecidas e outras foram acolhidas até por pessoas desconhecidas.

Porque estas hordas de assassinos, já estavam a fazer um cerco à cidade de Lourenço Marques para obrigar o povo, que estava cada vez mais encurralado, a fugir para a Baixa da cidade, em direção à sua Baía – não havia outra escapatória, morreriam chacinados, ou morreriam todos afogados - seria uma carnificina absoluta e inexorável.

Claro que perante estas chacinas levadas a cabo com uma selvajaria diabólica e não havendo sinais para que terminassem, deu-se a debandada geral dum povo que foi abandonado desde o início e de propósito pelos traidores e cobardes de Lisboa, crucificado, fragilizado, aterrorizado, horrorizado, traumatizado, que conseguiu sobreviver a tamanha matança, deixando para trás todos os seus familiares chacinados, os seus bens imóveis, móveis, veículos e pertences pessoais - tudo o que ainda não tinha sido saqueado, tudo o que ainda não tinha sido pilhado - saindo às pressas de Moçambique com uma mão à frente e outra atrás, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

O dinheiro que muitos portugueses tinham guardado nos bancos, as economias que muitos andaram a poupar ao longo dos anos com muito trabalho e sacrifício, com a intenção de terem uma velhice digna já que não havia reformas, sem aviso prévio ficaram sem as suas economias, ficaram sem nada, ficaram sem um tostão, porque as contas bancárias pessoais e das Empresas foram todas congeladas após o 25 de Abril, a mando dos “superiores de Moçambique e dos traidores, dos cobardes de Abril, dos vendilhões da Pátria – os de Lisboa”.

Os portugueses só conseguiam sair de Moçambique no Aeroporto de Lourenço Marques ou nas Fronteiras terrestres, saindo em direcção à África do Sul e outros países africanos, mediante a apresentação de um documento emitido pela Frelimo, onde era comprovado que tinham sido entregues as chaves das habitações alugadas ou próprias e o Papel Azul emitido pelas Finanças em como os Impostos estavam todos pagos, caso contrário não podiam sair de lá.

Os massacres mais hediondos perpetrados contra o povo português (de todas as raças e de todas as crenças) e que estão na memória de quem “sobreviveu a eles” são o 7 de Setembro, o 21 de Outubro e o 17 de Dezembro de 1974.

Na altura destes massacres tinha surgido na cidade de Lourenço Marques “um grupo refratário, insignificante e asqueroso de portugueses de todas as raças e de todas as crenças”, que não aceitavam jamais que Moçambique fosse Independente, contribuindo eles também com este ignóbil, intolerável e inaceitável protesto, ao massacre dos seus compatriotas.

Passados que são 50 anos, “este grupo refratário”, cujos nomes constam de uma lista (eu sei o nome de algumas pessoas que ainda estão vivas), que está na posse do Governo de Moçambique desde essa data - continuam a estar proibidos de pisar “Terra Moçambicana”.

Ainda estão vivos alguns dos "Responsáveis" (moçambicanos e portugueses) pelos hediondos massacres perpetrados ao povo português, que lançaram milhares de corpos de portugueses nas águas da Baía, dos rios Limpopo, Incomáti, Umbeluzi, Matola, ou os transformaram em cinzas fumegantes na terra que se acreditava que pudesse ser de todos os que lá estavam e que queriam continuar a viver nela – portugueses de todas as raças e de todas as crenças.

Esta chacina foi compactuada com os de “Moçambique e com os traidores e os cobardes do 25 de Abril (os vendilhões da Pátria)” – que deram as independências às pressas.

Depois do 25 de Abril de 1974, todos os antigos combatentes da guerra colonial, quando chegaram a Lisboa, alguns com a vergonha que sentiram por terem abandonado os portugueses de Moçambique, emigraram para a Europa, América do Norte, América do Sul, Austrália. Todos os Soldados da Guerra Colonial foram  abandonados por Portugal, ao longo destes 50 anos de "democracia".

Durante a guerra colonial e também no pós-25 de Abril, alguns dos ex-combatentes perpetraram por conta própria "Crimes de Alta Traição à Pátria Portuguesa e ao seu Povo" e que estão “gravados” nas páginas negras da História de Moçambique e da História de Portugal.

Um dos meus irmãos que cumpriu o serviço militar em Tete, numa das muitas emboscadas de que foi alvo, a sua companhia sofreu uma emboscada terrível em 1972, onde camaradas seus perderam a vida, outros ficaram gravemente feridos, foram evacuados para o Hospital Militar em Lourenço Marques e outros foram evacuados para a Metrópole/Alcoitão, muitos deles ficaram com braços e pernas amputados e muitos até sem os olhos, ficaram inválidos, mutilados, cegos e com traumas de guerra para toda a vida.

Ao fim de uns meses depois de ter recuperado e de estar novamente apto, esteve três meses em serviço no Quartel Geral sito no Bairro do Alto-Maé na cidade de Lourenço Marques.

A Baía de Lourenço Marques com uma largura de 36 quilómetros e 52 quilómetros de comprimento, forma o Estuário do Espírito Santo com 30 quilómetros quadrados.

Na Baía embocam, além de outros, os rios Maputo, Incomáti, Umbeluzi, Matola e Tembe.

A Xefina (constituída por 3 ilhas, Xefina Grande, Xefina Média e Xefina Pequena), fica dentro do Estuário do Espírito Santo, a uma distância de 5 quilómetros de Lourenço Marques, quase frente à Praia da Costa do Sol.

Na Xefina Grande existia na altura um Forte e uma Prisão Militar.

O seu serviço durante esses três meses consistiu no seguinte:

Ia todos os dias com os seus camaradas à Xefina num barco da Marinha para levarem géneros alimentícios, medicamentos, correspondência e outros, aos militares que ali se encontravam presos a cumprirem pena sentenciada pelo “Tribunal de Guerra” por terem cometido crimes contra o “Estado Português”.

Em seguida o meu irmão retornou a Tete para cumprir o tempo de serviço militar que ainda lhe faltava para passar à disponibilidade.

Falando em militares condenados pelo “Tribunal de Guerra” e presos na Xefina Grande, quem não se lembra de nos meados dos anos sessenta, um militar ter morto a tiro, três camaradas seus à porta da entrada do Quartel Geral (Alto-Maé) na cidade de Lourenço Marques?

Pois eu lembro-me desta tragédia, nunca o vou esquecer enquanto viver, porque um deles abatido. pertencia à nossa família e era filho único, sem irmãos, a casa onde morava ele e os pais ficava perto do Quartel onde foi morto, na Avenida 24 de Julho – Alto-Maé.

Os pais com o desgosto de ficarem sem o único filho, poucos meses duraram, ficaram todos sepultados no Jazigo de Família no Cemitério de S. José de Lhanguene.

Esta imensa vergonha que, com a Inquisição, constituem as mais negras páginas de uma História gloriosa – como foi a de Portugal – talvez para mostrar que mesmo um povo de heróis pode gerar traidores e fratricidas.

- Porque é que Portugal não pôs uma ponte aérea para os portugueses saírem de Moçambique como fez em Angola?

- Porque é que Portugal deu um prazo gigantesco, estranho e excessivo de 10 anos para entregarem Macau à China, e não fez o mesmo com as Províncias Ultramarinas, com todo o seu Império Colonial Português?!

Que o povo moçambicano tenha muita paz, muita saúde, que seja muito feliz e que viva com muita prosperidade.

11 de agosto de 2024

Portugal: Província Ultramarina de Moçambique (Ano 1960)





Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina de Timor (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina de Macau (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina do Estado da Índia (Ano 1960)



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Portugal: Província Ultramarina de S. Tomé e Príncipe (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina de Angola (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina da Guiné Portuguesa (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Província Ultramarina de Cabo Verde (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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Portugal: Províncias Ultramarinas Portuguesas e Sua Divisão Eclesiástica (Ano 1960)



Fonte: Arquivo Pessoal
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2 de agosto de 2024

Moçambique: Apontamentos Sobre Lourenço Marques de Hoje (Alfredo Pereira de Lima, 1965)


A capital de Moçambique, talvez seja a mais cosmopolita da costa oriental do Continente Africano, desde o Cabo a Suez. Mas não é um cosmopolitismo em que etnias diversas simplesmente existem e lhe dão colorido. É um cosmopolitismo em que as raças diversas que formam o matizado da sua população, se convivem e se estimam, cidade onde o respeito mútuo não é figura de retórica, mas uma verdade límpida exposta à luz clara do Sol para quem o queira ver. Os contactos de raças diferentes de que é constituída a sua população nativa, merece ser apreciada em todo o seu significado no Mercado de Xipamanine, nos subúrbios, servindo uma zona suburbana mais densamente povoada por nativos, na maioria destribalizados, provenientes de todos os cantos da vasta província portuguesa de Moçambique. O «machangane» compra ao «macua» este vende ao «muchope», que por sua vez trata de seus negócios com artefactos caseiros, como cestos ou esteiras, com o «tembé», numa perfeita harmonia de relações humanas e de entendimento de preço justo pela mercadoria que transacciona. Próximo, o «monhé», na sua cantina, vende panos garridos, lenços multicores e outros artigos tão de agrado da mulher nativa. O Xipamanine encerra um mundo de entendimento, entre raças diversas, mundo esse que o português soube criar.

Ouvimos alguém, sobre cujos ombros pesa a responsabilidade de um nome com séculos de história, que ninguém como o português soube criar à sua volta, mesmo nos primeiros contactos com raças diferentes da sua, um ambiente de simpatia. Dizia ele: «Até em locais mais recônditos da selva, onde o português chegou, criou imediatamente à sua roda um grupo de amigos». É a expressão da verdade! De uma verdade portuguesa, pois o exemplo do «Caramurú», não é, felizmente, único na nossa história.

Mais do que o seu chamado «ambiente continental», é essa convivência de raças em perfeita harmonia que faz de Lourenço Marques a menina bonita do Continente Africano, projectada nas colunas da Imprensa internacional pela pena de muitas centenas de jornalistas estrangeiros que nos visitaram ultimamente, alguns dos quais tivemos a honra e o prazer de acompanhar.

A cidade, cedo amanhece. Limpas as suas ruas pela 3 horas da madrugada, por brigadas de varredores municipais (a Câmara Municipal mantém ao seu serviço 400 varredores para tal serviço), ela desperta com o movimento enervante que se processa no Mercado da Praça Vasco da Gama, onde a cidade se abastece. O movimento aumenta à medida que se aproxima a hora matutina da abertura das repartições públicas e casas comerciais, ou seja às 8 horas da manhã. Machimbombos, superlotados, despejam no coração da Baixa milhares de pessoas que vão para os seus empregos. Tudo se processa ordeiramente, sem atritos, sem conflitos.

Na Cidade Baixa concentram-se os grandes estabelecimentos comerciais, os bancos, as sedes das grandes companhias. Avulta pela sua grandeza o moderno edifício do Banco Nacional Ultramarino – construído em comemoração do 1º centenário da sua instituição em Moçambique, ocorrido em 1964. É um edifício magnífico que honra a cidade. No seu interior admiram-se obras de arte, como painéis, telas de artistas famosos, mobiliário de estilo, etc., que deslumbram o visitante. A uma jornalista americana com responsabilidades, ouvimos nós a afirmação de que nem os Bancos de Nova Iorque possuem tal expressão de bom gosto.

A Maxaquene – outrora vilória nativa, cujo chefe usava esse nome – é o bairro sobranceiro à Cidade Baixa. O acesso principal a esse bairro é hoje feito pela Avenida D. Luís I que vai morrer no Largo Praça Mouzinho de Albuquerque, emoldurada pela Sé Catedral e o magnífico edifício dos Paços do Concelho, este em estilo neo-clássico. No seu interior admiram-se telas de Malhoa, de Columbano e de outros grandes mestres. O mobiliário é em estilo Luís XIV, com predominância de dourado. Uma Galeria de Arte – aberta permanentemente ao público – encerra trabalhos notáveis de artistas plásticos locais, cujo alto nível por ela se pode ajuizar. Na Maxaquene estão também situados o Palácio da Rádio – o mais importante da África Meridional – e edifícios residenciais de muitos andares. Na Avenida 24 de Julho, os modernos cafés «Princesa» e «Pigale», regurgitam sempre de gente, que mantém sempre bem viva a tradição lisboeta do café e «dois dedos de conversa».

No sentido da Polana, e depois de passar pelo Museu Álvaro de Castro, jóia arquitectónica em estilo manuelino, encontra-se a reentrância da Ponta Vermelha. O Museu – centro científico muito importante na África Meridional – é famoso pelas colecções zoológicas e etnográficas que possui e, bem assim, pelos trabalhos extraordinários de taxidermia, de que foi autor o falecido mestre Peão Lopes, Pai.

Na Ponta Vermelha, debruçada sobre a imensidão da baía que os nossos antigos apelidaram outrora e acertadamente de Baía Formosa – fica a Residência do Governador-Geral, além de numerosas casas residenciais modernas. Em toda a extensão da Ponta Vermelha, sobre a encosta da barreira, até junto ao Polana Hotel corre o famoso Miradouro Lisboa, outro marco inconfundível de portuguesismo nesta bela cidade, onde não se sabe que mais admirar, se sua beleza natural, se as obras que o homem realizou com o seu génio, vencendo as condições duras da Natureza, se o intransigente portuguesismo das suas gentes. O Hotel Polana, ocupa posição dominante, no topo da colina e marca o centro do bairro do mesmo nome. A designação proveio de um antigo chefe nativo do povoado que ali se fixara e com os quais os nossos pioneiros primeiro travaram contacto civilizador. A conservação de nomes como Maxaquene e Polana nos bairros mais elegantes da cidade de hoje é mais uma prova do carácter conservador do povo português e da sua política de convivência amigável com povos diferentes que encontram na sua jornada de expansão universal da sua cultura, evitando cuidadosamente destruir o que encontrou feito e estabelecendo com os naturais laços de fraternidade e de integração. Foi assim em Goa, em Macau, em Cabo Verde, em Angola, na Guiné, em Moçambique também e por todo o Mundo que soube criar à sua volta, sem ódios nem ambições sangrentas que caracterizaram a expansão de outros povos europeus, que extinguiram por completo – em determinados pontos do Globo – civilizações e raças inteiras! O português não tinha formação para semelhantes atrocidades. Proibi-as a sua formação moral e religiosa.

Transposto o bairro da Polana, temos o novíssimo Bairro dos Cronistas. De uma antiga e vasta «quinta» abandonada do Dr. Óscar Sommershield, no último quartel do século passado, o esforço e o entusiasmo dos lourençomarquinos foi capaz de, em pouco mais de dez anos fazer erguer o Bairro mais moderno e belo da cidade. Ele começou a fazer-se cerca de 1955. O Bairro dos Cronistas está para Lourenço Marques, a Velha, como Alvalade para a Lisboa pombalina.

A cidade espreguiça-se depois, pela encosta maravilhosa que vai morrer na famosa praia da Polana: imensa, de areia dourada, onde o Índico se desfaz em rolos e rendilhados de espuma quando o mar está agitado. Quando não, parece um imenso lago, verde-esmeralda de águas tranquilas. A Polana maravilhosa é um cartaz turístico internacional, que anualmente atrai, devido à segurança das suas águas, muitos milhares de turistas da África do Sul e da Rodésia. E quem, ao fazer a descrição física de Lourenço Marques poderá esquecer os domingos de sol na praia da Polana para onde a população inteira se encaminha, espalhando-se em formigueiro pela imensidão da praia? Em local mais sombrio a Câmara Municipal instalou o seu Parque de Campismo, em constante evolução e que tão popular é junto dos visitantes. Barracas e campanhas, chalés em alvenaria, rondáveis típicos de acampamentos africanos, formam um conjunto colorido dentro desse Acampamento para o qual a Câmara Municipal dedica especial carinho.

O Alto-Maé e a Malhangalene, são dois bairros tipicamente portugueses, situados na Cidade Alta, de características próprias. São bairros de gente trabalhadora, na maioria de classe média, profundamente arreigados à terra e às tradições portuguesas, das quais se destacam as comemorações dos Santos Populares. Mais adiante encontram-se os bairros do Chamanculo, do Xipamanine, de S. José, do Aeroporto e outros com uma população predominantemente nativa, mas onde se cultivam também as melhores tradições de Portugal, integradas no seu viver. Na casa mais modesta de trabalhador nativo, não falta o vinho na mesa, às refeições e um gesto de hospitalidade para quem lhe bate à porta.

Lourenço Marques, no Verão veste-se de flores garridas – nomeadamente de acácias rubras flamejantes. No Inverno, é ver-se pelos belos jardins municipais e particulares uma profusão das chamadas flores de Maio, de caprichoso rendilhado e alvas como véu de noiva. A cidade possui hoje, plantadas pela mão do homem – nesse caso pelos Serviços dos Jardins e Parques Municipais – cerca de 30 000 árvores, que lhe dão nota única e muito característica.

Reservámos propositadamente para o fim a vida nocturna desta maravilhosa cidade. Lourenço Marques, ou melhor a sua população, de forma alguma dispensa duas coisas: as matinées dos sábados e domingos em todos os teatros da cidade – quase sempre cheios por essa ocasião – qualquer deles apresentando requintes de conforto e comodidade; e a sua vida nocturna. Não que esta seja diferente de qualquer outra cidade portuária europeia, mas em África apresenta no multirracialismo da sua frequência um ambiente diferente que surpreende o visitante. Um diplomata ilustre que uma vez acompanhámos em visita a Lourenço Marques teve para nós esta curiosa afirmação: «Jamais deveis prejudicar o ambiente multirracial dos vossos clubes nocturnos da Baixa. É qualquer coisa de inédito em África! Clubes desse género com raparigas europeias mais ou menos despidas em espectáculos mais ou menos atrevidos encontram-se em qualquer canto do Mundo. Agora com o ambiente que se soube criar em Lourenço Marques, isso só em Lourenço Marques».

É na zona portuária da Baixa, ou melhor no que resta da Cidade Antiga, que se situam os mais famosos clubes nocturnos e cabarés de Lourenço Marques: o «Pinguim», o «Aquário», a «Cave», e outros de menor categoria. A sua frequência é a habitual dos cabarés em toda a parte do Mundo. Ocasiões há em que os ânimos aquecem para além das conveniências. Acontece então aquilo que acontece em todos os cabarés: disputas que se resolvem a murro, copos e garrafas partidas. Semelhantes disputas geralmente têm por protagonistas marítimos estrangeiros e muito raramente se envolvem nelas os frequentadores habituais de tais locais, que sabem perfeitamente quando devem bater em retirada, pois ninguém tem prazer em se meter em complicações com a polícia, que em tais ocasiões, como é natural, tem de entrar duro para resolver questões.

Nestas pouco linhas, fica apenas esboçado um quadro muito pálido da vida de Lourenço Marques de hoje. Tempo mais largo e muito mais páginas de prosa seriam necessárias para retratar fielmente o que verdadeiramente é Lourenço Marques, essa portuguesíssima cidade, debruçada garridamente sobre uma baía imensa onde desaguam cinco rios. Tão portuguesa ela é que perpetua o nome ousado de um piloto português das naus da Índia, primeiro que a descobriu para o trato do comércio com os nativos, em 1544, depois de haver sido descoberta por navegadores portugueses, cerca de 1500-1502.

Lourenço Marques, é bem uma afirmação perene de Portugal em África, mas de uma presença vigorosa, renovada, para permanecer e continuar Portugal.

Fonte: Arquivo Pessoal