3 de dezembro de 2009

Poeta Virgílio de Lemos é um dos vultos do seu tempo



Poeta Virgílio de Lemos é um dos vultos do seu tempo
A antologia “A Invenção das Ilhas”, do poeta moçambicano Virgílio de Lemos e lançada recentemente em Maputo pela Escola Portuguesa de Moçambique, constitui um dos momentos altos da sessão solene de celebração dos dez anos de criação daquela entidade académica.
Herdeiro de uma linhagem de corsários da Ilha do Ibo, onde nasceu em 1929, Virgílio de Lemos é, segundo Eduardo Lourenço – incontornável pensador português do século XX –, um poeta de vulto de Moçambique, a par de José Craveirinha e Rui Knopfly. Também Luís Carlos Patraquim, um dos grandes poetas moçambicanos do período pós-independência, considera Virgílio de Lemos “o mais experimentalista dos poetas moçambicanos”, o que tornava imperiosa a edição de uma antologia da vasta e dispersa obra deste poeta tão desconhecido na sua própria terra. Por ocasião do seu oitavo aniversário do poeta, a Escola Portuguesa de Moçambique assumiu a tarefa.


Virgílio de Lemos – irmão do pintor Eugénio de Lemos – foi um dos grandes impulsionadores do movimento literário moçambicano nos finais dos anos 40 e 50 e editou, em 1952, com Domingos Azevedo e Reinaldo Ferreira, a folha de poesia Msaho, contemporânea da revista Negritude, de Aimé Césaire, de quem foi amigo e colaborador em revistas como Presénce Africaine. Esta procurava enaltecer as culturas locais de Moçambique e criar uma poética moçambicana que rompesse com os paradigmas literários impostos pela colonização.
Após ter sido absolvido de um processo judicial por crime de desrespeito à bandeira portuguesa, com um poema escrito, em 1954, pelo heterónimo Duarte Galvão, no qual dizia que a bandeira portuguesa era “uma kapulana verde e branca”, Virgílio de Lemos colaborou, entre 1954 e 1961, na génese da resistência moçambicana, escrevendo para várias publicações, como O Brado Africano, A Voz de Moçambique, o jornal da esquerda política de então; Tribuna e Notícias. Em 1961 e 1962 o poeta esteve preso, acusado pela PIDE de subversão e de incitamento à independência de Moçambique.
Liberto, Virgílio de Lemos saiu de Moçambique, devido ao clima de repressão política, e dirigiu-se para as ilhas do oceano Índico, tendo mais tarde tocado as do Dodecanese, na Grécia, e outras da América Central, passando, em 1963, a viver e trabalhar em Paris. Aqui foi jornalista da RFI/ Rádio France Internacionale e colaborou com o Le Monde e o Le Monde Diplomatique, jornais onde foi sempre embaixador da cultura moçambicana e das causas africanas, tal como sucedeu noutros órgãos de comunicação social, aos quais emprestou a pena, como o Remarques Africaines (Bélgica) ou o Bonniers Literãra Magasin (Suécia).
Na obra literária de Virgílio de Lemos, escrita em português e francês, destacam-se Poemas do Tempo Presente (1960), livro apreendido pelo órgão português de censura da época, a PIDE, L'Obscene Pensée d'Alice (1989), L’Aveugle et L’Absurde (1990), Ilha de Moçambique: a língua é o exílio do que sonhas (1999), Negra Azul (1999), Eroticus Mozambicanus (1999), uma antologia publicada no Brasil pela prestigiada editora Nova Fronteira, e Para fazer um Mar (2001). A sua poesia é estudada em várias universidades brasileiras.
Em resposta a um dos maiores desafios do Modernismo e sob influência de Fernando Pessoa, Virgílio de Lemos desdobrou-se em heterónimos, sendo de realçar os de Duarte Galvão e de Lee-Li-Yang, este último correspondente a uma lusa-macaense que se constitui como o primeiro associado a uma mulher no mundo de língua portuguesa.
A sua escrita poética é fragmentária, sintética, com imagens surrealistas e eivada de uma dimensão cósmica, onde se abordam, sobretudo, as temáticas do onirismo, da liberdade do desejo e das problemáticas existenciais. O seu lirismo não desprezou, no entanto, a crítica às injustiças sociais e à repressão colonial. Dotado de raro cosmopolitismo, Virgílio de Lemos foi um dos poetas moçambicanos que mais se deixou embeber pela grande poesia universal, do modernismo brasileiro ao Concretismo, à poesia inglesa de Whitman, Shakespeare e Eliot ou à francesa de Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, Michel Leiris - com quem trabalharia no Museu do Homem, em Paris - e Saint John-Perse, absorvendo e transformando tudo no seu cadinho alquímico.

Assim, a Escola devolve a Moçambique um dos seus grandes poetas, publicando a antologia “A Invenção das Ilhas” em formato de livro de bolso, com 300 páginas, com organização e posfácio de António Cabrita.
Maputo, Quinta-Feira, 3 de Dezembro de 2009:: Notícias