4 de janeiro de 2009

Maria de Lurdes Mutola - Filha da Nação

MARIA DE LURDES MUTOLA - FILHA DA NAÇÃO Maria de Lurdes Mutola disputou o maior prémio do atletismo mundial: um milhão de dólares por ganhar cinco corridas de seguida. Conversa com a heroína de Moçambique Maria de Lurdes Mutola não é uma campeã qualquer. A mulher mais rápida do mundo nos 800 metros, primeira medalhada olímpica de Moçambique, tornou-se a heroína nacional. Um símbolo, num país necessitado de referências. Os moçambicanos tratam-na domesticamente por Lurdes, já lhe erigiram uma estátua, deram o seu nome a uma avenida e à escola primária onde andou. O Presidente Joaquim Chissano, que lhe pôs à disposição o número de telemóvel, é dos primeiros a ligar-lhe depois das provas. E ela não desdenha a sua importância. «Estou tão orgulhosa desse carinho todo que me é difícil expressar o que sinto. Acho que devo parte do que sou a esse apoio», disse esta semana ao EXPRESSO.
Foi também como agradecimento que a atleta criou a Fundação Lurdes Mutola, com sede em Maputo, que apoia «talentos» no desporto nacional. Aproveitando a «febre das corridas» que provocou em Maputo, a fundação já permitiu a mais de 20 atletas a participação em provas internacionais e está a pagar a preparação de uma corredora nos Estados Unidos. Na capital irá ser construído um centro desportivo profissional. No manifesto que escreveu para a fundação, Mutola diz: «Quando a bandeira de Moçambique sobe nos estádios internacionais não vencemos apenas uma prova desportiva; vencemos a descrença, a falta de confiança em nós mesmos, a condenação da pobreza, a exclusão e o isolamento.» Mutola percebeu bem a lição que o poeta José Craveirinha lhe ensinou, quando a descobriu, aos 14 anos, a retirou dos campos de futebol - onde ela julgava estar o seu futuro - e a atirou para as pistas, onde as suas pernas musculadas lhe haviam de dar um futuro glorioso. «Ele foi o meu Deus, o meu criador», diz Mutola, ainda saudosa de quem sempre chamou «o Poeta», falecido em Fevereiro deste ano. Ele foi o seu golpe de sorte. Adolescente num Moçambique estraçalhado pela guerra, Mutola não tinha outra brincadeira que não fosse jogar futebol. Disputava a bola ombro a ombro, nas peladinhas com os rapazes do bairro da Mafala, em Maputo. «Queria ser futebolista, em Portugal, como o Eusébio, ou nos Estados Unidos, onde sabia que havia equipas femininas. Mas também jogava por causa da guerra. Não tínhamos o que comer, não podíamos fazer nada, ir a lado nenhum. Não tínhamos liberdade, ficávamos fechados na cidade, onde havia alguma segurança. E o desporto era o meu refúgio». Maria já era o embrião da força que agora ostenta nas pistas. Convenceu a restante equipa dos Águias de Ouro a inscrevê-la numa competição municipal masculina. «Fomos campeões. Ninguém pensou que fosse problema eu ser rapariga», conta. Mas a competição era oficial e, mesmo com a elasticidade habitual das regras africanas, houve quem se aproveitasse da pequena falha para ganhar com isso. «Queriam que fossemos desclassificados». Na altura, ficou destroçada. Sem perceber ainda que naquela peripécia espreitava um novo futuro, longe dos relvados - onde, aliás, nenhuma mulher tem grande destino.
O caso deu brado nos jornais de Maputo. E chamou a atenção do escritor José Craveirinha que considerava o desporto uma das causas da emancipação moçambicana. Ele teve uma visão, quando decidiu ir observar Mutola a jogar. Reparou na maneira como a rapariga corria atrás da bola, os seus gémeos a esticarem-se sem perderem força, os glúteos contraídos num pontapé. Viu nela a campeã. «Quando ele me falou da primeira vez do atletismo, eu nem sabia o que isso era», recorda Mutola ao EXPRESSO, dando uma das gargalhadas com que costuma afastar os nervos, dentro e fora da pista. São conhecidos os largos sorrisos com que se deixa fotografar depois de poderosos «sprints» finais, em corridas com cara fechada e ar de quem pode levar tudo à frente. Dois dias antes da prova da sua vida - sexta-feira da semana passada estava em causa um milhão de dólares, o «jackpot» da Liga de Ouro da Federação Internacional de Atletismo, para quem ganhar cinco das sete principais provas mundiais - Mutola ainda dizia que preferia não pensar no prémio. «Quando ganhar logo penso no que vou fazer com o dinheiro». Foi essa combinação de força e humor que a levou de um bairro de caniço e madeira e zinco, em Maputo, até ao pódio do atletismo mundial, e fez ultrapassar todas as dificuldades. A primeira, as «dores horríveis no corpo», que diz ter sentido depois da primeira semana de treinos com o filho de Craveirinha, Stélio, treinador de atletismo. O escritor comprou-lhe as primeiras sapatilhas. Durante seis dias, Mutola correu distâncias curtas e fáceis. Ao sétimo estava numa pista a sério, para uma sessão de intervalos de 300 e 400 metros. «Aquilo dava muito mais trabalho do que eu pensava. Desisti e pensei em nunca mais na vida ver o Poeta», recorda Mutola. Craveirinha obrigou-a à persistência. Desistir era o erro de tantos outros e isso irritava o patriota, que via no corpo atlético dos moçambicanos mais futuro do que os resultados indiciavam. Até ali nunca Moçambique tinha ganho uma medalha olímpica. Craveirinha culpava a discriminação colonial também por isso. «Ele foi a minha casa convencer os meus pais de que eu tinha de correr», conta a atleta. Craveirinha teve uma conversa séria com os pais dela, João e Catarina Mutola, que tinham mais cinco filhos e poucos rendimentos. Ele era funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, ela cultivava legumes no quintal para vender no mercado. Acenou-lhes com os futuros louros da caçula da família. Certos, no seu entender.
Os tempos eram difíceis. Os pais acederam aos pedidos do auto-empossado «treinador» e deram-lhe a «tutela desportiva» da filha. Craveirinha sabia como convencê-la. Levou-a para casa e pôs no vídeo gravações das Olimpíadas de Los Angeles em 1984. O desempenho de Carl Lewis era o argumento que faltava. Resultou. «Nunca tinha visto um estádio tão cheio de gente». Apenas alguns meses depois, em 1988, no dia em que completava 16 anos, estava a correr nas Olimpíadas de Seul, terminando em sétimo lugar. O tempo obtido - dois minutos, quatro segundos, 36 centésimos - deu-lhe acesso à Bolsa Olímpica de Solidariedade. «Era uma tristeza, mas sabia que a tinha de deixar ir embora, Moçambique não tem uma cultura que apoie o desporto», diria Craveirinha. Aos 18 anos, sem saber uma palavra de inglês, Mutola embarcou num avião para Chicago, via Paris. Num dia de chuva, instalou-se em Eugene, no gélido e frondoso Estado do Oregon. Vivia com uma família americana e tinha aulas numa escola secundária, onde partilhava a sala de aula com adolescentes americanas preocupadas com vestidos e festas. As suas performances deram nas vistas, o que, aliado à sua condição de estrangeira e ao ar másculo - que se acentuou com os treinos no ginásio três vezes por semana -, contribuiu para que fosse o gozo na escola. «Foi muito difícil. Tive de aprender inglês rápido, ninguém sabia uma palavra de português. Não desisti porque uma vez liguei para casa a chorar e a minha irmã disse-me que se eu voltasse ia ser uma moça igual às outras, para aí nas ruas». A sua treinadora desde os tempos de escola, a americana Margot Jennings, tem outra explicação: «Ela estava a milhas das colegas todas em maturidade». GOVERNO PAGOU CASA DOS PAIS Mutola diz simplesmente que a sua preocupação era saber se os pais «tinham comida para comer». Pouco tempo depois deixariam de ter dificuldades, recebendo uma boa parte dos 250 mil dólares que a filha iria ganhar por ano, especializando-se nos 800 metros. «Acho que quem sentiu mais as mudanças foram os meus pais. O Governo até mandou recuperar a casa deles - a casa que a minha mãe nunca quis deixar. Até hoje!»
A carreira foi fulgurante. Nos Campeonato do Mundo de 1991, Mutola terminou a prova em quarto lugar, nas Olimpíadas de 1992 ficou em quinto, jogos em que correu os seus únicos 1500 metros numa prova internacional, ficando-se pelo 9º lugar. Nos anos seguintes tornar-se-ia a rainha dos 800 metros. O primeiro título de Mutola foi conquistado nos Mundiais de Estugarda, em 1993, no mesmo ano em que ganhou também os Mundiais de Pista Coberta de Toronto. Em 1995, em Gotemburgo, Mutola teve um dos únicos desaires da sua carreira: foi desclassificada por ter saído da pista. Prostrou-se de joelhos na pista. Mas alguns meses mais tarde recuperaria, quebrando o recorde da vencedora de Gotemburgo. Em 1996, em Atlanta, ganhou a primeira medalha olímpica para Moçambique, embora de bronze. Até 2000. Nas suas quartas olimpíadas, em Sidney, arrebatou o ouro dos 800 metros (com 1:56:15) e foi recebida em Maputo com uma passadeira vermelha e honras de heroína nacional. De 1992 a 1995 não perdeu uma única prova, tendo, segundo ela própria confessou, «perdido um pouco a motivação». O estímulo regressou depois duma pequena conversa com Nelson Mandela - seu ídolo de sempre -, que a chamou ao palácio presidencial para lhe garantir que África tinha os olhos postos nela. Apesar de ser heroína nacional, Mutola nunca mais voltou a viver em Moçambique. «Agora já podia treinar lá - porque tem ginásio e pista de tartan - mas não tinha sossego. Não é por mal, mas não me concentrava», diz. Tem um pequeno rancho nos EUA, que teve de abandonar por causa das alergias primaveris. E mudou-se para a África do Sul, onde fica mais perto da mãe (sozinha, depois da morte do pai num acidente de carro). Treina com a inglesa Kelly Holmes - a companheira que ela ajudou a ganhar o segundo lugar, na corrida dos 800 metros no Mundial de Paris, na semana passada. Este ano foi o melhor da sua carreira e, para já, Mutola não faz planos de reforma. «Ainda sou nova, quero continuar a correr», afirma. Mas quando as pernas já não a deixarem, o poiso será certo - a sua terra, Moçambique - «onde espero ajudar o povo naquilo que sei». E é tanto.
Texto de Catarina Carvalho, com Mateus Chale, correspondente em Maputo in: Expresso